Entre olhares

por jul 19, 2020Reflexões0 Comentários

Era a primeira vez que ficavam sozinhos em muito tempo. Ele tentava disfarçar o incômodo que sentia e ela fingia naturalidade. Já não ficavam à vontade um com o outro.

O ar ficou pesado. Ele engoliu em seco e ela mexeu nos cabelos negando o olhar dele. Apesar da atmosfera espessa, ele a olhava com curiosidade, enquanto ela imaginava se ele ainda lembrava dos dois.

O olhar deles se cruzou em um momento de coragem. Ele sorriu de nervoso e ela deixou escapar uma lágrima. Seus olhos marejados encontraram nos dele a presença do passado. Não sabia o quanto ele se lembrava, mas sentiu conforto ao ver que ele também sentia.

Ele se aproximou e se ajoelhou próximo ao banco de concreto onde ela estava sentada com o olhar já desviado. Colocou sua mão no queixo dela e gentilmente conduziu seu olhar de encontro ao dele. Sua mão estava gelada e seu rosto expressava carinho. Ela se encheu de coragem e olhando-o nos olhos perguntou baixinho: “foi de verdade?”

Ele sorriu diante daquela mulher incrível que parecia uma menina agora e sentou-se ao seu lado. Pegou sua mão e colocou na dele, olhou-a e disse: “cada minuto”.

Ela apoiou sua cabeça no ombro que a amparara tantas vezes antes e desabou. Todas as estruturas que a mantinham em pé caíram naquele momento e ela chorou doído. Ele a confortou, com lágrimas nos olhos. Sentia tanto quanto ela.

Ela não sabia por que não permitira ser tudo o que podiam. Ele sabia que era tarde demais. O tempo mudou de sentido e já não importava se era hoje ou naquela época.

Ela o abraçou forte. Um encaixe perfeito, como sempre. Compartilharam um último suspiro de sinto muito misturado com adeus.


Esse texto é uma colaboração da Mayara de 2012 com a Mayara de hoje, encontrei a primeira versão em um dos meus diários recentemente.

Foto: Vino Li

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