Ao redor

por jul 11, 2020Reflexões0 Comentários

Caminho pela rua ao entardecer. A alma vibra dentro do corpo.

Carrego o BuJo* embaixo do braço e as crenças no bolso enquanto rumo em direção a aula de dança. Ouço um elogio que vem do alto: um pássaro e sua família cantam para mim. Alguns garotos estão correndo e rindo durante um jogo de bets mais para frente. “Ah, eu adoro andar pela cidade!”, penso. É um dos hábitos que me ajuda com a ansiedade e com novas ideias. Fico mais leve enquanto meus pés me levam de um lugar a outro ou a lugar nenhum.

Ai, uma fisgada no joelho esquerdo. Paro para me recuperar e lembro do tombo de bicicleta em um momento de lazer adolescente. Sorrio. Explorar a cidade pedalando com as amigas é um dos meus programas favoritos, mesmo com dor no joelho.

Chego à escola, entro e vejo um grupo de mulheres esparramadas na área de descanso fazendo nada. Aceno. Vou ao vestiário me trocar, abro a bolsa e escolho uma das opções de collant. Estou adiantada, por isso me arrumo sem pressa. Me perco nos pensamentos enquanto faço um coque no cabelo.

“Quer tomar uma água de coco antes da aula?”, uma bailarina pergunta, me acordando do devaneio.

“Quero.”

Passamos pelas mulheres no sofá e digo onde estamos indo. “Alguém mais vai querer?”. Ninguém.

Atravessamos a rua e nos sentamos próximas a barraquinha de coco. Enquanto espero, observo o movimento da pista de caminhada ao lado das nossas cadeiras. Ouço o riso de uma criança ao longe. Vejo a solidão no rosto de um homem atlético. Admiro uma senhora que passa falando de trabalho ao telefone enquanto patina. Só a cidade tem a capacidade de unir tanta gente diferente.

O coco chega. Gosto da cidade, mas estou cansada do ritmo frenético e preciso de férias. Começo a planejar o roteiro de viagem: Parati e Mikonos. Sinto o cheiro de aventura. Ando pelas ruas descobrindo construções históricas. Paro para tomar um café e comer um quitute típico delicioso. Respiro, feliz. Tento registrar tudo o que me chama atenção, com a câmera e com a mente. Peço para que tirem fotos minhas nos pontos mais lindos: “xis!”. No dia seguinte, tem passeio de barco. Tudo pronto para zarpar.

“Vamos voltar? Está na hora da aula.”, mais um chamado a realidade.

O passeio de barco vai ficar para depois. Olho mais uma vez ao redor. Agradeço o coco, atravesso a rua, guardo os planos no bolso e vou dançar.


Esse texto é fruto do meu primeiro dicionário de coisas que gosto (o segundo está aqui). Ele surgiu no sexto encontro de “A escrita de si” da Mayara Blasi. Como sugestão dela, peguei uma das colunas e elaborei um texto com as palavras em ordem alfabética.

* BuJo ou Bullet Journal é um método de organização pessoal desenvolvido pelo designer Ryder Carroll. O sistema organiza agendamentos, lembretes, listas de tarefas, brainstorming e outras tarefas organizacionais em um único notebook.

Muito além disso, o Bullet Journal é uma ferramenta de autoconhecimento que me ajuda a viver com mais intenção. Escrevi mais sobre isso aqui.


Foto: Javier Garcia

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