Sinto, sinto, sinto. É um sentir intenso. Sempre fui assim, mesmo antes de saber que era.

É preciso ter cuidado com o que se diz para uma criança. Eu achava que era ruim sentir, porque doía. Todo mundo ao meu redor falava que eu tinha que ser forte. O que será que os adultos queriam dizer com “ser forte”? Eu fui forte do meu jeito, mas não sei se foi o jeito certo. Fui forte como deu, sabe? Foi difícil, mas eu não podia decepcionar todo mundo, então fiz o que deu com dificuldade mesmo. Até fiquei orgulhosa de mim achando que o meu forte era como eles queriam, mas depois de um tempo fui ficando doente e descobri que era porque eu tinha sido forte daquele jeito. Não quis acreditar e fiquei sendo forte por fora mais um tempo. Até que um dia, o peso ficou maior que a minha força e caiu todo sobre mim. Fiquei soterrada na força que eu achava que tinha que ter.

Foi confuso e meio bagunçado, mas com a ajuda de outras pessoas consegui dar um jeito. Só que tive que sentir e doeu. É, eles estavam certos. Mas também estavam errados, porque se eu tivesse sentido aos poucos, acho que era menos sofrido do que sentir assim tudo de uma vez. Parece que eu tinha tomado a água de uma piscina inteira. Precisei de um tempo para dar conta desse tanto de líquido que teimava em jorrar para fora.

Não tinha lugar nem hora. Quando dava conta, o olho já tava marejado. Mais um pouco e escapava tudo. Eu ficava constrangida de chorar no meio dos outros. Começava a rir e soluçar ao mesmo tempo, limpando o nariz. Tentando não deixar os outros embaraçados com aquele tanto de emoção. Nem todo mundo sabe lidar com emoção dos outros. Eu mesma não sei. Estou aprendendo ainda. Me embaralho nas palavras de consolo e acho que fui fria. Mas não é frieza, é não saber lidar mesmo. E vergonha de não saber, porque eu já tenho idade para saber lidar, mas nunca aprendi. Minha mãe não sabe lidar bem também e nem ninguém que mora comigo.

Outra coisa que ninguém sabe lidar aqui em casa é conversa séria. A gente morre de medo, igual a barata. Ninguém encara o bicho de primeira. Tem gente que finge que nem viu e sai de fininho, deixando o problema para outro resolver. Mas eu me esforço para voltar no cômodo onde a barata está e lidar com a situação. Deus me livre de ter barata andando solta pela casa. Eu não ia conseguir dormir.

É isso, não tem como fugir. Sinto mesmo sem querer. Lido mesmo sem saber.


Descobri que sinto tudo, até quando achava que não e que o sentir vem com umas manias embutidas. Percebi que fico olhando demorado para as pessoas que me intrigam. Mesmo quando não quero, olho. Mesmo achando que já olhei demais, ainda olho. Olho teimoso.

Me encho de vergonha quando as pessoas ficam olhando para mim. Quero me enrolar feito tatu bola e acho até bom ter um cabelo mais comprido para jogar na frente do rosto e me esconder da vergonha que sinto. Só que tem vezes que eu quero que aquela pessoa me olhe e fico arrasada quando ela não olha. Mesmo que eu fosse ficar com vergonha se ela me olhasse, sabe? Talvez iria até fingir que não vi ou que não liguei que ela tava me olhando. Mas eu teria visto e teria ligado muito.

Eu fico sorrindo engraçado para as pessoas que amo. É um pouco esquisito, mas não posso evitar e continuo sorrindo desengonçada. Será que existe lógica nas relações? Se existe eu não quero saber, não me conta. Não entendo como funcionam as conexões entre seres e estou bem assim. Gosto da aura mágica dos encontros. Tem vezes que fico alarmada e tento racionalizar para não sofrer, mas não adianta porque eu racionalizo e esqueço de não sentir na hora de interagir com a pessoa e sofro. Ou não. Nunca dá para ter certeza, só dá para contar com uma sensação. Mais tarde a intuição vai se revelar acertada ou enganada.

Esse texto saiu meio desconectado porque só fui escrevendo, sem pensar muito. Tirei umas frases de dentro de mim e joguei na folha branca. A coisa foi jorrando igual água dos meus olhos quando a emoção me arrebata.

O que eu estava sentindo enquanto escrevia? Acho que de tudo um pouco, não dá para sentir uma coisa de cada vez. Eu pelo menos não consigo. Eu só sinto e vou tentando lidar com os monstrinhos que vão aparecendo um por cima do outro ora na cabeça, ora no estômago, ora no peito. Às vezes aparecem na nuca e nos pelos dos braços. Tem vezes que vem com toque ou com som, mas o que eu mais gosto é quando vem com cheiro. O sentimento escapa rápido feito raio. Só dou conta quando o olho enche de lágrima ou sai um sorriso bobo na cara.

Antes eu achava que só sentia para dentro, mas não era verdade. Sempre foi para fora e faz um tempo que ando teimando em falar mais disso. Encho amigos e família de palavras emotivas, coloco para fora o que tá transbordando aqui dentro. Digo para quem não quer saber também, porque tem vezes que é importante mesmo não sendo fácil. Teve um tempo em que eu achava que tinha que seguir cada onda desse mar turbulento e isso me deixava exausta. Pensava que esse era o meu jeito de sentir: intenso e avassalador. Se não fosse assim, não valia. Hoje, ainda sou arrastada por algumas oscilações, mas acalmei os extremos e entendi que sou oceano.


Foto: Priscilla Du Preez

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *