“Acho que a sociedade fez um grande desserviço aos artistas quando começou a dizer que certas pessoas eram gênios em vez de dizer que tinham gênios. Isso ocorreu na época da Renascença, com a ascensão de uma visão de mundo mais racional e humanista. Os deuses e os mistérios foram perdendo espaço e, de repente, passamos a atribuir todo o crédito e toda a culpa da criatividade aos próprios artistas, responsabilizando completamente os frágeis humanos pelos caprichos da inspiração”.

Elizabeth Gilbert. A grande magia.

Para mim, a criação era uma atividade solo que só poderia ser revelada quando estivesse perfeita, ou seja, nunca. Na infância e adolescência, acreditava que estava me colocando a prova quando expunha algo que tinha feito e não poderia suportar críticas de quem eu esperava aprovação. Por isso, muitas criações moraram em caixas, pastas e cadernos escondidos nos mais altos armários da minha casa por anos.

Quando cursava Arquitetura e Urbanismo, meu processo criativo era determinado pelo prazo de entrega do trabalho. A demanda era grande e a minha sensação de não pertencer aquele curso também. Ainda não sabia que tinha escolhido essa graduação para realizar o sonho do meu pai, mas sabia que iria até o final a qualquer custo porque não me permitia desistir de nada. Era uma patinha feia e achava que não tinha sido abençoada com o talento necessário para ser uma boa arquiteta, o que foi reforçado pelo penoso processo de criação e pelas avaliações de professores ressentidos.

“Ah, a adorável adolescência, quando os ‘talentosos’ são oficialmente separados do resto do rebanho, colocando assim todo o fardo dos sonhos criativos da sociedade nos frágeis ombros de algumas poucas almas seletas e condenando todo o resto a viver uma existência mais banal, livre de inspiração! Que sistema…”

Elizabeth Gilbert. A grande magia.

Até descobrir como meu processo criativo funciona, fui me virando com o que estava ao alcance. Eu ainda não sabia qual língua a minha criatividade falava, estava carregada de estereótipos de artistas torturados e apegada a ideia de que a boa arte vem de lugares muito profundos e escuros dentro de nós. Era assustador.

Ao adquirir mais experiência, entendi que a criatividade é muito próxima da curiosidade, algo que é mais acessível para mim. Sou curiosa e adoro explorar temas que me despertam interesse. No meio da pesquisa, podem acontecer situações interessantes que a desviarão para rumos inesperados. Isso me deixa animada!


Quanto a inspiração, acho que ela gosta muito de mim e sei que gosto muito dela. Recebo sua visita com frequência e não tenho dificuldade em ter novas ideias. Quando uma nova faísca me ilumina e insiste em reaparecer por um período, sei que é importante. Foi assim com a Conversa de Domingo, tinha um pedido de dentro do peito para começar que me tirou o sono e não saiu dali até ser materializado.

A parte desafiadora é administrar a quantidade de sugestões que invadem a minha mente a todo momento. Cheguei a achar que sofria de falta de foco crônica e só entendi que a minha força estava na horizontalidade no aniversário de 32 anos. Deixei de me cobrar profundidade e foco em um único projeto e passei a explorar várias áreas de interesse. Me dei permissão para usar as experiências pessoais para criar com autenticidade em mais de um campo. A criação estava deixando de ser um peso e se tornando um momento prazeroso.


O medo de julgamentos diminuiu consideravelmente e percebi que expor meus erros criativos é uma ótima maneira de me levar menos a sério e me conectar com outras pessoas através da vulnerabilidade (te amo desde 2012, Brené Brown). Trabalhar com o erro, torná-lo um desafio de criatividade e desmistificá-lo foram grandes avanços em meu processo pessoal e criativo. Conhecer as experiências de outros autores por meio de seus livros e palestras e tomá-los como mentores me ajudou a construir uma imagem de criatividade mais próxima da realidade e a me sentir menos desconfortável com o título de criativa.

Guardar cadernos e produções artísticas é outra fonte para novas criações. Tenho diversos volumes de diários que guardam meus pensamentos desde 2009. Quando me sinto corajosa o suficiente, releio suas páginas, revivo momentos e me reconecto com a minha forma de escrever. É um movimento constante de aprimoramento, variando a velocidade dos passos conforme o ritmo da vida. Ao criar preciso abrir espaço interno e isso exige que algo deixe de existir ou, pelo menos, ocupe menos área. Passo pela vida-morte-vida, deixando uma parte de mim morrer para que o novo nasça, o que não é ruim. Vejo a criação como uma grande catalisadora de boas mudanças! Tenho escolhido deixar morrer antigas memórias de sofrimento, conceitos que não estão alinhados com quem sou, velhas ideias sobre mim e sobre como as coisas deveriam ser. Há momentos em que a entrega é leve e divertida e tem vezes que acesso lugares internos desafiadores e sinto mais o deixar ir. Aprendo, celebro as visitas da inspiração e os produtos dos nossos encontros. Digo sim para meus tesouros internos.

“A criatividade é sagrada e ao mesmo tempo não é.

Aquilo que produzimos tem uma enorme importância e também não tem a menor importância.

Labutamos sozinhos e somos acompanhados por espíritos.

Morremos de medo e somos corajosos.

A arte é um trabalho devastador e também um maravilhoso privilégio.

A divindade só nos leva a sério quando nos encontramos em nosso estado mais brincalhão.

Abra espaço para que todos esses paradoxos sejam igualmente verdadeiros em sua alma e prometo que poderá fazer o que quiser.

Então se acalme e volte ao trabalho, está bem?

Os tesouros escondidos dentro de você estão esperando que diga sim”

Elizabeth Gilbert. A grande magia.

Fotos: James Pond, Cristian Escobar e Kristopher Roller

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