A pintora

por jun 28, 2020Reflexões0 Comentários

Acordo com a claridade que entra pela janela. Me viro de um lado para o outro em meio a roupa de cama branca. Enrolo por 30 minutos e decido me levantar. Calço chinelos macios, visto um roupão felpudo e vou para o banheiro. Faço minha higiene pessoal e desço as escadas que levam à cozinha. Bebo um copo de água e encho a chaleira para preparar o café. Enquanto espero a água ferver, abro o pacote com o pó de café e sinto o cheiro tostado que invade o ambiente. Fecho os olhos e respiro fundo. Sons borbulhantes me avisam que a água está fervendo e em poucos instantes meu café está pronto.

Levo a xícara para o jardim e me sento em minha cadeira favorita. Olho as plantas ao redor e fico imersa nos sons da natureza. Grilos, pássaros e farfalhar de folhas compõem a melodia matinal. Uma joaninha pousa em meu cabelo, coloco meu dedo em sua direção, convidando-a a mudar de lugar. Em pouco tempo começo a sentir suas delicadas patinhas fazendo cócegas em meu indicador direito. Ela avança para o punho, antebraço e ao chegar ao cotovelo, voa para uma samambaia ali perto que assistia a cena toda.

Finalizo o café, me levanto, entro em casa e subo para o quarto. Coloco uma roupa confortável e sigo para outro cômodo para iniciar o trabalho. Giro o frio trinco metálico, abro a porta azul marinho e contemplo o meu ateliê. O ambiente é tranquilo e bem iluminado, uma brisa leve vinda da varanda me dá boas vindas. Entro e fecho a porta. Caminho em direção à sacada sem tirar os olhos da tela em que venho trabalhando nos últimos meses. A figura retratada me segue com os olhos enquanto caminho pelo cômodo. Me debruço sobre o macio guarda-corpo de madeira e contemplo a vista: um exuberante jardim tropical se projeta a minha frente. Mais adiante, a praia acorda tranquila e o mar dourado me convida para um mergulho. “Mais tarde, amigo”, penso.

Volto para o ateliê e me sento em frente à tela. Encaro-a por algum tempo, explorando cada pincelada presente no retrato com curiosidade, estou à espera da próxima pista. Nada. Faz semanas que ela não vem. Coloco o avental e pego um pincel sem tirar os olhos da pintura. Eles recaem sobre o canto direito inferior, onde acaba de pousar uma joaninha. O sinal está dado, é hora de começar o trabalho.

Começo com pinceladas suaves e lentas, ainda não sei bem o que devo fazer. O ritmo das mãos vai me colocando em estado meditativo, a tensão se dissipa e os movimentos do pincel tornam-se intencionais. Ajo impulsionada pelo instinto, sei que estou no lugar certo, esse é um dia bom. Agradeço mentalmente a minha inspiração e a sua ilustre presença no ateliê: “Quanto tempo, minha querida! Estou feliz por trabalharmos juntas hoje”. A produção segue entre movimentos precisos e pausas frustradas, algumas negociações precisam ser feitas ao longo do processo e idas à varanda em busca de ar puro são necessárias de tempos em tempos. Aproveito para alongar costas e braços durante os intervalos.

Já passa do meio da tarde quando solto o pincel e me afasto para encarar a pintura. Meu corpo é percorrido por uma corrente elétrica e um sorriso escapa para os lábios. O resultado é diferente do que tinha em mente quando iniciei o quadro, mas é bom. Agradeço a inspiração e sua colaboração em mais um trabalho. Foi um projeto longo e finalmente posso dar meu mergulho em paz.

A animação é grande, por isso não sinto fome. Pego algumas frutas no balcão da cozinha e coloco na bolsa de praia. Na saída, beijo meu cachorro e meu marido e rumo descalça para a areia. Atravesso o jardim, sinto a grama macia sob meus pés, seguida de pontiagudas pedrinhas e finalmente a areia morna. Deixo a bolsa no chão e corro para o mar, preciso lhe contar o que aconteceu hoje. Suas águas frescas me abraçam, sinto os redemoinhos se formando na altura dos quadris no vai e vem das ondas e acho graça das algas que lambem minhas pernas vez ou outra.

Saio renovada da água salgada e me sento sobre a toalha branca. Me seco ao sol enquanto provo os suculentos pêssegos que levei na bolsa. A cada nova mordida, uma calda doce escorre dos lábios até o queixo e pousa ora no corpo, ora na areia. Um grande chapéu de palha com fita preta protege meu rosto dos raios do sol e eu observo a dança das nuvens durante o entardecer. Silencio enquanto contemplo o pôr do sol, fascinada pela mudança das cores ao longo dos minutos.

Volto para casa saltitando como criança. Areia, pedrinhas e grama. Um cheiro quente e aconchegante me recepciona ao adentrar a casa, uma sopa de abóbora me espera para o jantar, é a minha favorita. Meu marido sabe que foi um dia bom, mesmo sem termos trocado nenhuma palavra sobre o assunto, ele diz que o jeito que desço as escadas reflete meu humor. Subo para tomar banho, a água doce leva embora todo o sal do meu corpo. Volto perfumada para o andar de baixo. Jantar, sorrisos, conversas. Braços entrelaçados e roupas leves para um passeio com o cachorro pela vizinhança. Acenamos para as pessoas batendo papo em frente às suas casas à luz do luar. Retornamos para o nosso lar ladeados por prateadas Costelas de Adão.

Pijamas, preparativos para dormir e livros em mãos. O meu é de aventura e o dele é sobre os mistérios do universo. Cada um se senta do seu lado da cama, ombros separados, pés juntos. Uma brisa suave entra no quarto, sombras brincam pelas paredes me dando ideias para novos projetos e eu adormeço em paz.


Esse texto foi inspirado no exercício Vidas Imaginárias do livro “O caminho do artista” de Julia Cameron.

Foto: Pierre Bamin

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