Um corpo estranho

por jun 21, 2020Reflexões0 Comentários

Eu sei o que sei. Sabe mesmo?

Sinto dizer que não e que temos consciência de uma pequena parte do que sabemos. A maior familiaridade é com os assuntos que a mente sabe, porque ela não para de tagarelar sobre isso. No meio do falatório mental, esquecemos de olhar para sinais mais sutis de um grande sábio que fala conosco o tempo todo: nosso corpo. Ele tem sido torturado para caber em padrões estéticos, preso em roupas desconfortáveis, desgastado por exercícios físicos extenuantes, forçado a ficar parado por horas em uma cadeira e calado com uma infinidade de medicamentos.Acomodados ou sem saber por onde ir, deixamos de explorar nossos corpos como entidades cheias de sabedoria e até a enxerga-los como inimigos.

Já perguntou como ele está se sentindo hoje?

Depois de um longo período de desconexão com o meu corpo e diversos processos de adoecimento, a prática de auto observação voltou para a minha vida e tem sido um dos pilares do autoconhecimento e bem estar por aqui. O corpo nos indica como está o funcionamento interno através de manifestações físicas como: alergias na pele, acne, manchas, mal estar, alteração no cabelo, pelos e fluídos corporais. Ele também fala conosco por meio dos sonhos, utilizando símbolos para demonstrar como anda nosso processo de elaboração dos acontecimentos. O corpo quer ser ouvido, mas encontra pouca abertura a suas sutis sugestões em meio a nosso atribulado dia-a-dia. Ainda bem que isso pode ser mudado, basta começar a observar para se maravilhar com o seu universo particular.


Meditação, yoga, acompanhamento do ciclo menstrual, diário de sonhos e bullet jornal são algumas das práticas que me ajudam a escutar os sinais do meu corpo e fazer escolhas mais conscientes ao longo do dia. Um ritual matinal me ajuda a começar a manhã com intenção e impacta as horas que estão por vir. Um ritual noturno auxilia na transição do período produtivo para o de descanso e desacelera a minha mente me preparando para dormir.

A alimentação desempenha um papel fundamental no meu processo de conexão com o corpo. Já vivi algumas transições alimentares, passei da criança que só comia industrializados, arroz e carne para uma mulher vegetariana que come quase tudo. Ainda assim, a pele ainda estava cheia de inflamações e manchas mesmo depois de 1 ano e meio sem o anticoncepcional e com uma dieta considerada saudável. Minha autoestima estava baixa, me sentia sem disposição, animo ou alegria, estava irritada e sensível. O peso oscilava e a minha mente estava muito confusa.

No início de junho, comecei um programa de desintoxicação com a Ayurveda, um assunto que me interessa há algum tempo. A vivência duraria 15 dias: 7 de conteúdo teórico e 7 de dieta de desintoxicação. Passei pela teoria e estou no 12 dia da dieta, porque meu corpo ainda tem toxinas para eliminar. Aprendi que a capacidade digestiva, ou agni, é responsável por processar os alimentos, pensamentos, emoções e situações vividas, nunca havia pensado dessa forma. Descobri que o meu estava muito baixo e isso iluminou vários pontos por aqui.

A dieta é restrita e diferente de tudo o que eu já tinha feito, mas está sendo um caminho muito interessante e estou feliz em estudar e praticar o que me propus no início do ano. Durante os dias de desintoxicação, somos incentivados a ter um diário e notei que minha clareza mental aumentou, minha pele está menos inflamada e estou dormindo melhor. Ficou claro para mim como cedia as fomes emocionais e que comia mais do que o meu corpo precisava, sobrecarregando-o. Sem falar das demandas emocionais, mentais e situacionais que ele precisava dar conta.


Também consulto meu corpo para tomar decisões além da alimentação. Um amigo me ensinou esse exercício e tenho utilizado para todos os casos em que fico em dúvida sobre um convite, um novo projeto ou um novo amor, serve para qualquer momento. Fecho os olhos e faço a pergunta para o corpo, por exemplo: “quero jantar com fulano?”, observo onde se manifesta e sei a resposta. Se tenho uma sensação no abdômen / estômago, é um não e se tenho uma percepção no peito / coração, é um sim. Se fico em dúvida, pergunto novamente e se ainda não sei, prefiro não ir. Você pode estar pensando que isso tudo é muito místico ou bicho grilo e sim, eu também acho meio ridículo, ainda mais quando tem alguém por perto. Mas funciona, então não deixe que um preconceito bobo te impeça de acessar esse lugar. Se quiser, vá ao banheiro ou finja uma tontura para poder fechar os olhos, mas faça o que tem que fazer para ter a sua resposta. Conforme for praticando, fica cada vez mais fácil de identificar o sinal.

Esses estudos, experimentações e práticas tem aumentado a minha autonomia sobre o corpo e impacta a maneira como olho para mim, para os outros e para a vida. Antes, tinha uma visão fragmentada e frágil, com presença constante de tensão, tentativa de controle e alerta enrijecendo meu corpo. Hoje, me sinto mais centrada, flexível, forte, segura e confiante para enfrentar desafios. A visão do mundo está mais integrada e já não me assusta como antes. Isso é uma conquista e tanto para mim!

Se eu puder fazer uma última sugestão, recomendo que também experimente perguntar ao seu corpo como está se sentindo todos os dias e procure ferramentas para compreendê-lo melhor. Estreitem os laços. Talvez o seu corpo esteja sendo ignorado e calado por tanto tempo que você se sinta ridículo como no exercício anterior, mas sugiro que tente mesmo assim. No começo, as respostas podem vir em sussurros ou irromper em alertas bem altos, não se assuste, logo tudo se equilibra e vocês se tornam bons amigos. Tem respostas esperando para serem encontradas em lugares onde você nunca procurou, não tenha medo de saber o que sabe.


Foto: Chuttersnap

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