A minha raiva é um líquido quente, como lava, que sobe do estômago, enche o peito e invade a minha garganta em grandes labaredas. Travo as mandíbulas para evitar cuspir fogo nos outros. Tento retardar a erupção do vulcão, mas nem sempre consigo. Às vezes a lava se solidifica nos meus ombros e pescoço e acabo com dores terríveis até me curvo, protegendo o coração como se colocasse uma armadura em volta do peito, uma estrutura que protege, mas também machuca, limita meus movimentos. Vou secando até virar terra rachada e sem vida. Me castigo por ter perdido o controle e só me perdoo depois de uma série de reparações rigorosas.



Nos dias em que consigo lidar com a raiva, sinto seu bafo quente como uma adolescente que usa vestido vermelho de gola alta e manga 7/8 de um tecido bem pesado com all star de cano alto da mesma cor. Ela é um pouco inconsequente e mimada, mas também é decidida e cheia de energia. É quem me ajuda a colocar limites onde preciso e a movimentar o que precisa ser reacomodado aqui. Tem vezes que a jovem lança tudo para o alto e nada cai no mesmo lugar, assim reorganiza o espaço interno para se sentir mais ela mesma, personaliza paredes e dá boas vindas ao novo. 

A minha raiva é fogo que transmuta ou reduz as cinzas, combustível que catalisa transformações ou explode tudo de uma vez. É a fonte para criação ou destruição, com a mesma potência, é um chamado que não me permite ficar indiferente e obriga a parar tudo para olhá-la nos olhos e ouvi-la.


Mais um texto produzido nos encontros virtuais “A escrita de si”, facilitados pela Mayara Blasi entre abril e maio desse ano. A proposta era identificar o que eu estava sentindo e “deixar o sentimento pelado” através de uma série de perguntas. Foi um dos exercícios que mais gostei de fazer!
Esse texto foi revisado pela minha xará, ficando ainda mais especial.

Foto: William Moreland

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