Eu me lembro de papai

por jun 14, 2020Reflexões4 Comentários


Meu pai era apaixonado por doces, quase todos os dias passava na doceria a caminho de casa. Ele chegava com corações de abóbora, canudos de doce de leite, chocolates e suspiros, seus favoritos. Era uma festa quando ficávamos sob seus cuidados porque o cardápio era miojo ou alguma comida nutricionalmente duvidosa. Outra coisa que papai gostava muito era sorvete de flocos, a vasilha dele era o dobro do tamanho da nossa. Tinha vezes em que colocávamos groselha por cima, uma ousadia que adorávamos.

Eu me lembro que um dia ele chegou com um doce diferente para nós. Eu e minha irmã brincávamos na lavanderia do apartamento quando ele nos entregou um saquinho pequeno. Ao abrir, vi um pó que lembrava açúcar cristal. Ele disse para despejarmos um pouco na boca e assim fizemos. Logo senti pequenos fogos de artifício, batendo na língua e no céu da boca. Foi uma gritaria com risada, não imaginava que o doce tivesse esse efeito mágico. Estava entre a surpresa e a animação. Papai ria da nossa reação, feliz por temos gostado.

Me lembro que ia com ele para o escritório e ficava no computador. Eu gostava de ver as letrinhas aparecendo na tela preta. Tinha um adesivo com imagem de praia cobrindo toda a parede atrás de sua mesa de vidro com pneus como base (ele tinha uma renovadora de pneus). Ele adorava o Rio de Janeiro, segundo minha mãe. Quando ela estava grávida de mim, foram assistir um Fla-Flu no Maracanã, ela disse que foi assustador porque o chão balançava, mas meu pai estava feliz. Ele gostava de futebol.



Eu me lembro que papai gostava de tomar cerveja e comer peru com bacon como aperitivo. Minha mãe contou que só se achava em buffets e que meu pai gostava tanto que ela encomendava e congelava para ir fritando aos poucos. Ao nos levar para aula, ele deixava a gente escolher o caminho que queria fazer, soltas no banco de trás ou no porta malas da Parati. Lembro de esperar até anoitecer para ele nos buscar no colégio, as vezes chorava achando que meu pai tinha nos esquecido, mas ele nunca esqueceu.

Lembro de uma viagem que fizemos para a fazenda do meu avô no Mato Grosso. Foram dois dias de carro, então ele e minha mãe arrumaram a traseira da camionete para que fôssemos ali atrás. Colocaram um colchão de casal no meio e as malas em volta, nós amamos! Brincamos de tudo ali, até Banco Imobiliário teve, mas nem todas as peças foram encontradas depois dessa viagem. Paramos na casa da minha tia em Cuiabá para dormir e pegar a estrada no outro dia de manhã. Essa é uma das poucas viagens que lembro de ter feito com ele.


Na fazenda do meu avô

Eu me lembro do dia em que estava brincando no pátio da Renovadora, subindo e descendo a escada que os mecânicos usam para olhar embaixo dos carros. Adorava aquele buraco no chão e os macacos de ferro. Subia e descia as escadas até que errei o degrau na subida e bati a boca no concreto. Deve ter sido um choro bem alto. Meu pai veio correndo, me pegou no colo e levou para o dentista. A queda foi feia e tive que fazer uma cirurgia odontológica, fui corajosa e a recuperação foi a base sorvete, por orientações médicas. Um dos meus dentes da frente é um pouco mais escuro que os demais por conta desse episódio.

Me lembro que tinha uma máquina de sorvete da Eliana e que em uma das vezes que fiz com meu pai, o sorvete ficou salgado. Tive um chalé da Barbie também, acho que ele me deu porque queria ser arquiteto, mas só tinha o curso na UEL (Universidade Estadual de Londrina) e meus avós não deixaram ele ir, então cursou administração aqui mesmo. Ele chegou a trabalhar em uma construtora e projetou algumas casas. Já vi plantas baixas, mas não sei onde estão. Esses dias passei em frente a uma das casas que ele projetou é um chalé, ele adorava chalés. Queria ver como é por dentro, mas não conheço os moradores. Tempos depois, ao escolher o curso de graduação, assinalei a opção “Arquitetura e Urbanismo” mesmo querendo ser psicóloga.



Eu me lembro que ele usava roupas coloridas e ficava sem camisa dentro de casa. Lembro do carneirinho que passou uns tempos com a gente e dos ovos de Páscoa que meu avô escondia pela casa. Lembro que papai era sorridente e disponível, gostava de Paralamas do Sucesso, principalmente a música do marinheiro. Esses dias perguntei para a minha mãe se tinha alguém que papai não gostasse, ela pensou por um tempo e disse que não, ele gostava de todo mundo e todo mundo gostava dele.

Esse texto foi inspirado no exercício: “Eu me lembro”, proposto pela Mayara Blasi em um dos encontros virtuais “A escrita de si”.  Nessa atividade, tínhamos que listar lembranças da infância começando pela frase “Eu me lembro”.

Fotos: arquivo pessoal.

4 Comentários

  1. Denise

    Nao tem como não se emicionar com esse texto. Seu pai era realmente um paizão, muito querido e apaixonado pir vcs.

    Responder
    • mayarabortolotto

      Ele era mesmo, Denise. Que bom que deu para sentir <3

      Responder
  2. Dani

    Que exercício maravilhoso. Sem querer esses dias fiz esse exercício pensando na minha bisavó e como era cada detalhe da casa dela. Foram dias felizes e memórias cheias de amor!

    Responder
    • mayarabortolotto

      Ah, que delícia. Estamos todos conectados, né Dani? Muito bom saber que esse exercício te levou para lugares felizes e cheios de amor.

      Responder

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *