O amor tem falado comigo. O que quer de mim dessa vez?

Ele me convida a explorar novos caminhos e quero ir, mas a mente me lembra de experiências passadas e pergunta “quer passar por isso de novo?”. Não, não quero. Ainda assim, o amor insiste e passo dias a pensar sobre ele.

É preciso me sentir merecedora para deixar que me amem, mas nem sempre consigo. Questionei como aprendi o que é amor, se é saudável dessa forma e quais são as minhas expectativas sobre ele. “E se o amor vier em um formato diferente do que eu conheço? E se eu conheço sorvete e ele vem pastel, como fica? Consigo perceber e aprender que pastel também é amor? Ou vou deixar passar por não ser sorvete?”

A gente limita o amor. E por “a gente”, quero dizer eu.

Não quero limitar o amor, quero recebê-lo de braços abertos mesmo com medo de sofrer. Quero puxar uma cadeira ao meu lado e bater papo com ele a noite inteira ou ficar em silêncio olhando o céu. Quero aceitar o convite do amor todas as vezes, porque é ele que dá sentido à vida.

“O amor me chamou pra um outro lado, e eu fui atrás dele. Eu pensei que se eu não fosse a minha vida inteira ia ser assim, vida de tristeza, vida de quem quis de corpo e alma, e mesmo assim não fez.  Aí, eu fui. Eu fui e vou toda vez que o amor me chame, vocês me entendem? Como um cachorrinho, mas coroada como uma rainha! Vou feito um andor, na frente da procissão.”

Filme Lisbela e o prisioneiro

Um dia desses, estava me sentindo para baixo e procurei um amigo. “Não aparece ninguém que faça meu coração bater forte e quando aparece não fica”, foi a minha queixa. Conversando com ele, percebi que era medo de amar de novo. Eu tinha ido a uma consulta com o ginecologista naquela manhã e ele havia perguntado se eu gostaria de congelar meus óvulos (pelo meu histórico médico, idade e por saber que quero ser mãe). Era a terceira consulta em que essa pergunta aparecia e mexeu comigo todas as vezes. Formar família é um grande desejo meu, mas a vez que cheguei mais perto disso se tornou um trauma. A trilogia filhos – aborto – fim de casamento é o primeiro pensamento que chega à mente, tenho que respirar fundo e falar para mim mesma: “não é porque aconteceu da última vez que vai acontecer de novo, as pessoas são diferentes e você está mais madura. Tem muita gente bacana e disposta no mundo e sua família vai chegar na hora certa”. Vou me abrindo gradativamente para um novo par.


Não restrinjo minhas reflexões ao amor romântico, englobo a paixão pelo que fazemos: projetos, ideias, comida e o que mais despertar fascínio. Percebi que tenho bloqueio em afirmar que sou uma artista, me sinto uma farsa, mas no fundo essa é a palavra que me deixa mais feliz. Sou uma artista, sempre fui. O amor me convida a usar esse nome e quero tentar, mesmo vacilante.

Brincar faz parte do convite também. Ficar mais com meus sobrinhos, família, amigos e cachorros. Levar a hora de brincar a sério, para manter a criança de dentro feliz e nutrida. Aceitar participar de rodadas de jogos online e produções criativas à distância. Ler um romance com o corpo no sol, sem contar o tempo, anotar no Trello ou postar nas redes sociais. Andar de bicicleta pelo bairro, sentir o vento no rosto e ver o jogo de luz e sombra entre as folhas das árvores. Rir de mim mesma. Tudo isso tem cheiro de amor para mim.

O amor sussurra aos meus ouvidos quando tenho uma inspiração ou percorre o corpo como uma descarga elétrica quando vejo aquela pessoa. Quando acontece, não tem para onde fugir e aceita-se o convite por pressão ou convicção. Para mim, é cada vez mais difícil fazer algo “por pressão”, quero andar pela vida com firmeza, confiança e coragem. Sem garantias, mas consciente de que é o desejo do meu coração e, portanto, o melhor que posso fazer. Assim sigo, ouvindo o chamado do amor por todos os lados e aceitando um pouco mais a cada dia.

“(…) quero decorar minha vida temporária da maneira mais colorida possível. E não digo apenas o sentido físico, mas também no emocional, espiritual e intelectual. Não quero ter medo de cores vibrantes, desafios bizarros, mudanças repentinas, ou mesmo do fracasso.”

Elizabeth Gilbert. A grande magia.

Foto: Laura Vinck

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