Vício em trabalho

por Maio 31, 2020Reflexões0 Comentários


Ao ler o capítulo onze de “O caminho do artista”, me vi descrita nas páginas. Estava afastada do livro há pouco mais de dois meses e entendi que precisava viver esse período para entender o que ia ser lido. Tenho me sentido bloqueada e exausta, a maioria do que tentei criar ultimamente “deu errado”, ou seja, não alcançou meu nível de exigência. Deixei o BuJo de lado por sentir uma pressão enorme para me superar e quanto mais tentava criar, mais frustrada ficava. Me comparei, cobrei e passei bastante raiva até me render e decidir desacelerar.

Sou uma pessoa que não sabe parar de trabalhar. Mergulho de cabeça em projetos, me dedico à exaustão, quero que saia o mais lindo, alinhado e perfeito possível (credo). O que me chocou foi perceber que o que eu achava uma virtude, era um vício exaltado pela sociedade. O trabalho saudável possibilita conquistar espaço e liberdade, dá oportunidade de fazer coisas que gosto e com quem admiro, aprender muito, realizar sonhos e me conectar com pessoas. O abuso do trabalho gera entraves criativos e bloqueia o fluxo.

“Se as pessoas estão ocupadas demais para escrever as páginas matinais ou para ter seu encontro com o artista, elas provavelmente estão ocupadas demais para ouvir a voz de seus anseios artísticos autênticos”

Julia Cameron. O caminho do artista.


Nesse período, investiguei o histórico familiar, inclui reflexões sobre questões de gênero e descobri uma crença que associa produtividade a autovalor o que explica tanta cobrança por trabalho. Me sinto invisível e penso que se não produzo, não existo, isso me levou a trabalhar por muitas horas além do expediente e a acordar-trabalhar-dormir quando passei para o home office em 2016. A autoimagem também foi um problema, ainda mais durante a transição de carreira, porque eu achava que o que produzia era um hobby e algumas habilidades a desenvolver, não algo que merecesse ser mostrado e priorizado. Tinha vergonha que me elogiassem e achava meio chato ficar falando sobre isso, quem iria se interessar por desenhos e agendas? Era o medo de não ser boa o bastante e de me assumir criativa, ser estigmatizada e não dar conta de sustentar isso.

“Em vez de confiar em nossa intuição, nosso talento, nossa capacidade, nosso desejo, nós temos medo de onde nosso criador pode nos levar com essa criatividade.”

Julia Cameron. O caminho do artista.


Depois que fiz as oficinas de Bullet Journal, fui jantar na casa de um casal de amigos e eles elogiaram meu trabalho, ela disse: “O que você faz é diferenciado, você sabe, né?”, ali percebi que não via meu próprio talento. Se a Talita não tivesse postado aqueles 3 ou 4 stories mostrando meu BuJo, talvez eu não tivesse descoberto até hoje. Esse é o grau de autocobrança que tenho comigo, acho que as coisas que faço são normais e que não merecem atenção, um reflexo de como as meninas são vistas pela sociedade, é esperado que elas sejam caprichosas, tenham habilidades artísticas e sejam sensíveis, isso não é visto como um diferencial.

Além disso, tenho que me policiar para não colocar o trabalho à frente do lazer, minha mãe dizendo “primeiro a obrigação e depois a diversão” enraizou-se no meu modo de viver. Para atender a necessidade de ser amada, operei por esse princípio por tempo suficiente para desaprender a me divertir em qualquer oportunidade, não sei relaxar quando tem trabalho a ser feito. Para mudar isso, comecei a planejar as semanas pelo domingo, nem sempre funciona e acabo recusando vários convites para me distrair, brincar e fazer algo que não seja produtivo. Sigo tentando.

“Para a maioria dos bloqueados, diversão é algo que evitam quase tão assiduamente quanto sua criatividade. Por quê? A diversão leva a criatividade. Leva à rebeldia. Leva a sentir nosso poder, e isso dá medo”

Julia Cameron. O caminho do artista.


Um amigo me disse que sou ótima em entender os outros, mas não tão boa em entender a mim mesma. Ele está certo, não reconheço meus talentos, me cobro demais, tenho dificuldade em relaxar e em nomear o que se passa aqui dentro. Escolher seguir um caminho diferente do que as pessoas da minha família seguiram também é desafiador e me deixa dividida em muitos momentos, sinto que não pertenço e acabo questionando meu valor, me obrigando a produzir mais para preencher essa lacuna.

Me propus a desacelerar nos últimos 15 dias de maio e só assumi um compromisso de trabalho nesse período (vitória!), além de compartilhar minhas reflexões em textos de domingo. Sair do ritmo frenético das redes sociais, parar de me cobrar para produzir conteúdo loucamente e de me comparar ao longo do feed, me ajudaram a respirar aliviada. Consumir menos informações e desligar o celular após as 20hs deixaram a minha mente mais calma. Rituais matinais me ajudam a fazer com intenção e práticas noturnas são aliados de uma noite de sono menos turbulenta. Sinto que estou caminhando com minhas próprias pernas e em meu ritmo, isso me faz bem.


Foto: Carl Heyerdahl

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