Meu valor vem de onde?

por Maio 31, 2020Reflexões0 Comentários


Desliguei meu celular as 19hs, refleti sobre a semana no Bullet Journal e preenchi a Mandala Lunar. Escovei os dentes, fui para o quarto e acendi duas velas que ficam em cima da cômoda. Deitei atravessada na cama perto das 21hs, coloquei as pernas em cima de dois travesseiros e as mãos na barriga. Olhei para o teto, respirei fundo algumas vezes e fechei os olhos. Quanta coisa meu corpo estava fazendo naquele momento? Muitas. Todos os órgãos funcionando como uma orquestra perfeita e silenciosa. Percebi o quanto faço mesmo quando “não faço nada”.

Tenho dificuldade em não produzir, invento inúmeras ocupações para me esquivar da falta do que fazer até me esgotar. Dou um jeito de contornar a situação e sigo fazendo, fruto da herança familiar aliada a construção social (saiba mais em De quem é meu corpo?). Esses tempos me descobri viciada em trabalho, uso para não lidar com outras pessoas e me bloquear criativamente. É, também não acreditaria nisso antes, mas é a verdade. Foi um choque tão grande que paralisei, aí começou a fase introspectiva, veio a síndrome da impostora questionando tudo o que faço e mergulhei em muita escrita para tentar entender o que se passava aqui dentro.

“A verdade é que frequentemente estamos trabalhando para evitar a nós mesmos, nossos cônjuges, nossos verdadeiros sentimentos”

Julia Cameron. O caminho do artista.


Comecei a revisitar memórias e notei que me sinto invisível faz tempo. Não sei qual é a origem disso, pode ter sido depois que minha irmã nasceu, após o falecimento do meu pai, por um abuso sofrido na adolescência ou pelos relacionamentos não saudáveis que tive ao longo desses anos. O que me chamou atenção foi a recorrência da sensação de invisibilidade, relatada em manuscritos com a frase “queria que alguém testemunhasse a minha existência”, repetida periodicamente. As relações são parte fundamental do meu senso de autovalor, é através de laços afetivos que me percebo, desenvolvo e cresço. Quando alguém que amo e confio não me trata com respeito, usa meus pontos fracos para me atingir e me deixa insegura quanto ao seu afeto, condicionando-o a alguma postura ou atitude minha, fico profundamente abalada. Ser ignorada ou repreendida como uma criança que cometeu um terrível erro, reforça a sensação de invisibilidade e não merecimento e me causa muito sofrimento. Acredito que forjei uma “solução” para isso através da materialização que o trabalho proporciona e assim a crença de que se não produzo não existo, se fortaleceu.

Não tenho medo da morte.

O que sinto é tristeza.

O mundo é muito bonito!

Gostaria de ficar por aqui…

Escrever é o meu jeito de ficar por aqui.

Cada texto é uma semente.

Depois que eu for, elas ficarão.

Quem sabe se transformarão em árvores!

Torço para que sejam ipês amarelos…

Rubem Alves. Paisagens da Alma


No núcleo familiar, fui rodeada por mulheres que sempre estavam ocupadas e esgotadas, descansar era um luxo que não fazia parte da nossa realidade. A crença de que homens são maus e sempre nos abandonam (temos um longo histórico de abusos, traições e mortes na família), reforçaram a postura de guerreiras, pensamos que temos que estar sempre alertas e com armas empunhadas para nos defender. Ao longo dos anos ouvi incontáveis vezes que mulheres tem que ser forte, que somos umas pelas outras (restrito a família), que não podemos contar com ninguém, que beleza atrai inveja e que a vida é difícil. Percebo que as mulheres da minha casa não têm um senso de autovalor muito elevado, o que pode ter contribuído para não saber como estruturar o meu.

A construção da autoimagem também foi impactada e se esfacelou diversas vezes durante a vida, desde acreditar que eu não era uma boa pessoa (essa foi a queixa na primeira sessão de terapia da minha vida) até acreditar que eu era boazinha demais. Por algum motivo, não ser a menina responsável, certinha e amável que esperavam que fosse me fez sentir um fracasso. Ainda lido com a falta de merecimento que me visita de tempos em tempos.

“(…) descobri que estava vivendo um certo equívoco. Não que eu não possuísse qualidades. Simplesmente não era uma supermenina-prodígio. Havia investido muito nessa autoimagem, mas ela simplesmente não se sustentava mais.”

Pema Chödrön. Quando tudo se desfaz.


Com essas reflexões, percebi que o meu autovalor é pequeno e às vezes nem consigo encontrá-lo. Doeu saber que preciso que os outros me digam que o que faço é bom, relevante e merece continuar. Me senti frágil e com medo e detesto me sentir assim. Venho trabalhando o autovalor, mas ele estava tão baixo que sozinha não consegui encher o reservatório o suficiente para não precisar tanto do olhar do outro. Parece com deficiência de vitaminas, quando precisamos de um concentrado para ajudar a chegar à quantidade ideal para depois manter níveis saudáveis com nossos esforços individuais.

“Quando tudo se desintegra, somos submetidos a uma espécie de teste, e também a um certo processo de cura. Achamos que o sentido está em passar no teste e superar o problema, mas a verdade é que as situações não têm uma solução definitiva. Elas se compõem e desmoronam. E mais uma vez se compõem e desmoronam. É simplesmente assim que funciona. O processo de cura ocorre ao deixarmos existir espaço para que tudo isso aconteça: espaço para o pesar, para o alívio, para a angústia e a alegria.”

Pema Chödrön. Quando tudo se desfaz.


É importante que saibamos de onde vem nosso autovalor, quais são suas partes frágeis e o que fazer para abastecê-lo. Acredito que a manutenção constante desse reservatório seja uma forma de autopreservação e saúde emocional, um aliado para enfrentar as mudanças e desafios ao longo da vida sem perder de vista quem somos. Além disso, a autonomia emocional nos aproxima da autenticidade e contribui para uma expressão mais coerente. Para lidar com o trabalho em demasia, construir uma autoimagem mais próxima da realidade, fortalecer o autovalor e relaxar um pouco, priorizei algumas práticas ao longo da semana:

  • Fazer com as mãos: um momento à noite para escrever, desenhar, colar, pintar ou costurar. Quero fortalecer a conexão mãos-mente e a intuição, encher o reservatório criativo, resgatar o prazer de criar e desligar os pensamentos antes de dormir;
  • Definir um horário limite: a intenção é trabalhar de 4 a 6 horas por dia e sair para fazer atividade física às 17hs.
  • Exercício físico: me exercitar todos os dias e variar as atividades. Para me trazer bem estar e marcar períodos de transição entre trabalho e descanso.
  • Meditação: ao acordar e antes de dormir, pode ser meditação ativa. Para entender o que é meu e o que não é, acalmar a mente, melhorar o foco, estar presente, trazer intenção ao dia e dormir melhor.
  • Ser gentil comigo: aceitar minhas habilidades, talentos e limitações e me dar o tempo necessário para chegar a outros lugares. Praticar o não julgamento para me cobrar menos, me acolher mais, celebrar conquistas e ser feliz.

“Tu podes amanhecer tristeza, entardecer esperança e anoitecer sol”

João Anzanello Carrascoza, Caderno de um ausente


Foto: Allie

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *