Abrir espaço para a espontaneidade

por Maio 24, 2020Bullet Journal, Reflexões0 Comentários


Layout semanal inspirado na forma como me organizei até pandemia chegar. Produzi esse para a série que eu e a Tamires fizemos em março e abril e disponibilizamos gratuitamente para download.

Desde o começo do ano, tenho feito um exercício semanal de reflexão: separo um período do sábado e me sento com o Bullet Journal (BuJo) para pensar e escrever sobre o que aconteceu naquele período. O modelo escolhido para a organização e planejamento da semana é um compilado de hábitos que quero ver crescer: fazer menos tarefas por dia, eleger prioridades e garantir que o que precisa ser feito realmente seja, planejar e priorizar o lazer e refletir sobre o que aconteceu durante o período.

“O que fica no caminho, se torna o caminho”

Marco Aurélio

As reflexões semanais tem me ajudado a ajustar rotas, lembrar do que faz bem e do que precisa mudar. Por serem feitas no espaço de uma semana resultam em pequenos passos que são perfeitamente cabíveis em minha realidade e não me paralisam frente a grandes mudanças, é como tomar pequenos copos de água durante o dia ao invés de dois litros de uma vez.


II Oficina de Bullet Journal para iniciantes em fevereiro de 2020, parceria com a Tre Sorelle

A organização do BuJo mudou desde o começo do isolamento social, mas a prática das reflexões semanais se manteve. Essa semana, lembrei de um acontecimento curioso do começo do ano. Durante uma reunião de planejamento da oficina de Bullet Journal, eu e a Tamires conversávamos sobre a data da primeira edição. Estávamos em frente ao seu computador quando ela abriu a agenda eletrônica para definirmos o dia e notei que tinha um horário reservado diariamente para imprevistos. Perguntei o que era e ela me disse que tinha reservado um tempo para lidar com as coisas que não tinham sido planejadas. Entendi o que ela quis dizer e percebi que outras pessoas tinham a mesma ilusão que eu: achamos que podemos controlar o que acontece em nossas vidas. Pensar assim me trouxe frustração por anos, por isso adotei uma postura menos rígida e sigo trabalhando diariamente nela. Quando essa situação aconteceu eu estava vivendo essa transição há algum tempo, por isso sugeri que ela mudasse para espontaneidades. Para mim, imprevisto soa ruim, é o nome que damos para o que não queríamos que acontecesse. Espontaneidade por outro lado, é um jardim de possibilidades agradáveis e acreditar nisso abre espaço para que coisas boas aconteçam.

Eu já sabia do poder das palavras, por isso fiz a sugestão. Acredito demais na força dos símbolos que elegemos e dotamos de significados, por isso temos que escolher bem as palavras que vamos usar. Esse é o momento por aqui: escolher o que quero deixar entrar, o que vou convidar para ficar e o que deixar passar. Tenho me sentido mentalmente exausta, a crescente oferta de informações tem me oprimido e a cobrança por produzir conteúdo me paralisou. Perdi a conexão com o prazer e a autenticidade da escrita, sinto que foram diminuindo para caber em caixas de texto de redes sociais.  Na busca por mais espaço e espontaneidade, menos controle e pressa, quis experimentar uma nova forma de compartilhar as minhas reflexões semanais, através de e-mails todo domingo. A ideia é levar os benefícios que experimento com esse exercício meditativo para outras pessoas e mudar o ritmo das trocas, saindo da rapidez da rolagem do feed para textos mais encorpados.


Layout de uma semana durante o distanciamento social com as reflexões da semana ilustradas ao invés de escritas. Falei mais sobre o processo desse modelo no IGTV

Também escolhi desacelerar um pouco, consumir menos conteúdo e ouvir mais as solicitações que vem de dentro. Me encontrei sufocada pelo ritmo de trabalho, criativamente bloqueada e desconectada da minha expressão autêntica. Quero resgatar o que me faz trazer para o mundo uma contribuição genuína e alinhada com quem sou, para isso preciso voltar para mim e para o presente. Para abrir esse espaço onde a espontaneidade pode se manifestar escolhi ficar mais introspectiva essa semana, talvez por isso eu não tenha dormido muito bem, mergulhar em mim mesma traz muitos sonhos e reflexões à tona. Ainda assim, percebo que os ciclos em que me recolho são essenciais para dar passos mais conscientes e deixar pesos pelo caminho. Veremos o que a nova semana reserva e que sementes vou escolher plantar nessa lua nova.


Fotos: Ahmad Odeh. arquivo pessoal e Tamires Belluzzi

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