Alunos de uma sala de Altas Habilidades: o que sentem e pensam sobre educação

por abr 20, 2020Altas Habilidades, LEGO Serious Play0 Comentários


No dia 10 de março, estive na sala de Altas Habilidades do Instituto de Educação Estadual de Maringá (IEEM) para facilitar duas oficinas utilizando a metodologia LEGO® Serious Play® (LSP). Reunimos 29 pessoas entre educadoras, mães e alunos que frequentam a sala para dialogar sobre o que pensam e sentem a respeito da educação. Ouvir os estudantes compartilhando suas opiniões a respeito da aprendizagem, ver a evolução na construção dos modelos e das histórias, foi incrível. Que experiência encantadora!

A ideia do projeto nasceu depois que participei do II Seminário Internacional de Criatividade, Talento e Superdotação realizado pela Unicentro em Guarapuava no ano passado (leia mais aqui). Nessa época, não sabia quase nada a respeito de altas habilidades e aprendi muito no evento. Retornei fascinada pela área e com vontade de realizar mais trabalhos voltados para esse público. Foi esse desejo que me levou a conhecer a Luciene e a Ivanir, professoras que coordenam a sala de altas habilidades do IEEM e que toparam fazer a dinâmica com os estudantes atendidos pelas duas.

Ivanir, eu e Luciene

A Luciene é responsável pela sala no período da manhã e foi meu primeiro contato no Instituto. Cheguei até ela através de outra professora, a Eliane Rose Maio, que conheci em Guarapuava em outubro. Em nossa primeira reunião presencial, pude conhecer pessoalmente a Luciene e a Ivanir (professora que coordena a sala à tarde), apresentei minhas ideias e elas concordaram em fazer a experiência comigo. Saí de lá animada e feliz por poder desenvolver trabalhos na área de superdotação na cidade em que moro e contribuir para a visibilidade desses estudantes, dando voz para suas necessidades e opiniões.

“A compreensão das altas habilidades/superdotação (AH/SD) é complexa, está em construção e é permeada por acordos e desacordos. No Brasil, seguimos as Diretrizes da Educação Especial, as quais conceituam superdotadas as pessoas com alto desempenho intelectual, acadêmico, nas artes, na motricidade, na liderança e/ou no pensamento criativo (BRASIL,1995). Trata-se de um conceito geral que baseia definições conforme diferentes teorias que não se excluem, mas se complementam.”

MOCHI, Luciene C.C.; MAIO, Eliane R. Sala de Recursos em altas habilidades/superdotação: (re)pensando o sexismo e a violência de gênero. Koan: Revista de Educação e Complexidade, n.2, p.37-52, 2014

Alunos escolhendo as peças para incluir no modelo

Na manhã do dia 10, eu e Luciene esperávamos os 10 participantes inscritos para iniciar a oficina. Arrumamos a sala com a ajuda dos alunos que chegaram mais cedo e fomos posicionando o pessoal na mesa. Para a minha surpresa, mais estudantes começaram a chegar e tivemos que acomodá-los em uma segunda mesa, totalizando 16 pessoas. Na parte da tarde, o grupo foi de 13 pessoas, incluindo a professora Ivanir. É importante dizer que nem todos os alunos que frequentam a sala de altas habilidades do IEEM são superdotados, alguns dos alunos que participaram das oficinas não tem altas habilidades, mas são convidados a frequentar a sala como a Luciene explica:

“Desde 2009, tenho através das pesquisas, compreendido que a estimulação e incentivo à criatividade gera potencial acadêmico. Como as salas de AH/SD são salas para estimular potenciais e enriquecimento curricular, entendo que se há vagas, podemos no final da avaliação concluído que o aluno não apresentou características para a superdotação, fazer uma observação no relatório e convidar o aluno a participar. Esse é um protocolo próprio que desenvolvi no IEEM. Agora, como se trata de vagas públicas, o atendimento só pode ser realizado em caso de vagas ou seja, esse aluno não pode ser contemplado se por acaso a sala já estiver com os números completos. O que nunca acontece na verdade. Sempre temos menos alunos e alunas.”

A atividade desenvolvida foi um pouco diferente da que conduzi no II Seminário Internacional de Criatividade, Talento e Superdotação. Como a maioria dos participantes eram alunos com idades entre 11 e 18 anos, reformulamos as perguntas para que todos pudessem acompanhar as etapas do workshop e não gerássemos frustração nos participantes mais novos e nem tédio nos participantes mais velhos.

Turma 01 . Oficina período da manhã
Turma 02 . Oficina período da tarde

Depois de concluir as oficinas do dia e arrumarmos o espaço, notei que os estudantes continuaram na sala. Enquanto aguardava para falar com as professoras sobre as dinâmicas, alguns meninos ficaram conversando, tocando instrumentos e discutindo o planejamento de projetos que iriam desenvolver futuramente. Isso me chamou atenção, comentei com a Luciene e ela disse que esse comportamento era comum e que demonstrava que os alunos tem interesse em aprender, ao contrário da queixa de muitos professores e pais, mas não se sentem motivados pela metodologia utilizada dentro das salas de aula.

Outro acontecimento que demonstrou vontade e disponibilidade por parte dos estudantes, foi o número de interessados na atividade. Depois do workshop da manhã, diversos alunos foram conversar com a Luciene para saber se poderiam participar do grupo da tarde. Houve repercussão em toda a escola e alguns participantes do primeiro workshop quiseram comparecer novamente no segundo período. Além disso, ao serem perguntados sobre como foi a dinâmica, disseram que gostariam que fosse realizada mais vezes e que eu voltasse para trabalhar com eles logo.

A diferença no número de meninas e meninos que frequentaram a oficina também me fez refletir e lembrar que a questão de gênero e suas representações impedem muitas alunas de serem identificadas como superdotadas. Espera-se que as meninas sejam naturalmente carinhosas, caprichosas, comportadas e dóceis, enquanto os meninos devem ser agitados e bagunceiros, essas representações sociais interferem na identificação dos estudantes com altas habilidades e impactam diretamente suas vidas.

“Mochi e Maio (2014) objetivaram pensar sobre o número destoante entre meninas e meninos identificados e a frequentar sala de recursos de AH/SD. Os resultados mostraram que de 126 matrículas, 101 são meninos e 21 meninas (80% meninos). Uma das questões problematizadas é a influência dos papéis de gênero no momento da identificação e o fato de que as próprias avaliadoras “não percebem a si e nem as avaliadas com características e traços de potencial elevado” e reproduzem a crença de que “a mulher possui uma essência dócil, internalizada, retraída e submetida à aceitação de uma desigualdade perante aos homens” (Ibid, 2014, p.42). As autoras apontam as demarcações históricas de gênero construídas pela família, escola e Estado, a desigualdade entre gênero feminino e masculino, a violência que ambos sofrem pela normatividade de gênero e chamam pela responsabilidade de educadores na mudança deste cenário.”

MOCHI, Luciene C.C.; MAIO, Eliane R. Sala de Recursos em altas habilidades/superdotação: (re)pensando o sexismo e a violência de gênero. Koan: Revista de Educação e Complexidade, n.2, p.37-52, 2014

Alunos construindo modelo

Ao colocarmos estudantes, mães e educadoras na mesma mesa, respondendo as mesmas perguntas, com os mesmos recursos e tempos de fala, horizontalizamos as relações e formamos um lugar seguro para expressar-se de maneira autêntica e vulnerável. As devolutivas desse dia de trabalho foram ótimas e os participantes saíram felizes com o que construímos durante as oficinas. Além de terem mais clareza sobre o modo como aprendem e quais são os desafios enfrentados por cada um durante a aprendizagem, as pessoas sentem-se pertencentes a um grupo, construindo um senso de comunidade. Os participantes experimentam empatia pelos colegas e formam laços mais estreitos, a observação e escuta ativas durante os compartilhamentos dos modelos possibilita identificar quem está sofrendo e precisa de ajuda, oportunizando um acompanhamento mais próximo do estudante. Foi possível perceber situações que precisam ser acompanhadas de perto entre os participantes das duas oficinas no IEEM, essa identificação permite encaminhamento para outros profissionais, que irão ensinar o aluno a lidar com suas emoções e com os desafios vividos, além de sentir-se acolhido. Esse acompanhamento é importante para a família que poderá compreender melhor o que se passa com o jovem para auxiliar no processo e apoiar o estudante. O trabalho conjunto de escola, profissionais e família é a forma mais efetiva de prevenir evasão escolar, autoflagelação e até suicídio e diminuir o sofrimento emocional e psíquico dos alunos.

Orientação sobre o exercício do cenário

O último exercício proposto foi a construção de um cenário com os desafios enfrentados por eles, formando uma história dos desafios do grupo. Esse momento é diferente de todos os anteriores, até agora haviam construído apenas modelos individuais, e exige que os participantes colaborem, façam concessões e entrem em acordo em favor do coletivo. Eles devem usar todos os modelos para formar uma só narrativa, onde as diversas visões sobre o tema precisam ser contempladas. Os resultados demonstram a pluralidade de perspectivas e de formas de contar histórias:

História #01

“Em um dia, Roberto estava em sua aula de filosofia e o professor pergunta a ele: “O que é Filosofia?”. Roberto, com sua mente fértil e imaginativa, em sua cabeça cria teorias sobre a resposta da pergunta que lhe foi feita.

Este imagina, dentro da ficção e da realidade, a reposta para o problema desconhecido. Roberto então, nota que suas ideias estão embaralhadas e distorcidas. Logo, raciocina que deve organizá-las de uma mais clara.

Depois de muito esforço, Roberto acha uma solução para este enigma e chega ao seu objetivo: a resposta era o limite entre o credo e o cientifico.”

História #02

“Ryode é um garoto de 12 anos que tinha muita dificuldade de compreender a sua mente e a dos outros. Ele é introvertido e é espero, mas Ryode tem problemas para se concentrar, por isso lugares com muito barulho como a escola, se tornam um desafio o qual ele tem que enfrentar. Com tantos problemas, ele se esconde da realidade jogando, fazendo com que ele se feche em uma bolha. Tudo isso foi causado pelo bullying, e pelas pessoas que não queriam ver seu sucesso, lhe causando medo de crescer.”

História #03

“Em um dia pacato Carlos e Sebastião estavam jogando uma partida de xadrez valendo uma Tubaína de 1L. Sebastiao fez uma jogada que poderia resultar em mate. Então Carlos procurou em sua mente a solução para este conflito. A princípio, Carlos entrou m pânico, pois subestimou Sebastião e, portanto, não teria dinheiro para a Tubaína, certo de que ganharia.

Ele respirou fundo e sua calmaria era como ondas no oceano. Após se acalmar, encontrou uma brecha na defesa de Sebastião, virando o jogo. Após alguns minutos, Carlos estava aproveitando um copo bem gelado de Tubaína.”

História #04

“Todas as pessoas têm um sonho, seja pequeno ou grande. Para que os sonhos sejam realizados é necessário atitudes, sendo que o maior obstáculo somos nós mesmos. Após superarmos nós mesmos, é fundamental percorrer um caminho para realizarmos tal. Para chegar ao final do caminho da realização, é preciso muito conhecimento. Para isso, necessitamos de foco e m objetivo concreto. Reunir recursos.  Todavia, organização o é essencial para adquirir o conhecimento de modo mais eficiente. Ademais, a ação de uma equipe atuando em prol do objetivo é de suma relevância. Unindo esses aspectos, chegaremos ao nosso objetivo, podendo assim atingir o topo.”


Montagem do cenário e contação de histórias dentro dos grupos
Montagem do cenário e contação de histórias dentro dos grupos

Momentos como os vividos durante essas oficinas são ricos e nos permitem dialogar de forma leve e divertida a respeito de temas relevantes e complexos, mas infelizmente não são acessíveis a todos os grupos que se beneficiariam de dinâmicas como essa. O trabalho realizado no dia 10 foi possível graças à união de diversas pessoas que doaram seu tempo, materiais, espaço e conhecimento.  Agradeço a Luciene e Ivanir por toparem e apoiarem o projeto e cederem seu tempo e espaço para a realização das oficinas, ao Jorge e a Paquisa pelo apoio com o desenho da dinâmica e as peças, a Tamires pelos lindos registros, as mães e alunos.

Eu e Tamires

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *