Bullet Journal como ferramenta de autodesenvolvimento

por jan 21, 2020Bullet Journal0 Comentários

“A vida havia ficado atarefada demais. Parecia que minha existência se resumia a uma longa lista de afazeres. Eu havia me esquecido de meus sonhos, meus objetivos, meus ‘e se’, meus ‘se eu pudesse’. “ Amy Haines


Se, assim como eu, você tem múltiplos interesses e projetos, é provável que seu método de organização seja tão fragmentado quanto suas predileções e que alguns sonhos se percam pelo caminho enquanto o ano vai passando. Me considero uma pessoa organizada e tenho o hábito de planejar há tempos, mas chegou um momento onde meus pensamentos estavam todos bagunçados e as agendas comuns não davam conta de organizar os devaneios. A situação era mais ou menos assim: diversas listas de afazeres, diário, post it, agenda digital, entre outras ferramentas que deveriam me ajudar a ser produtiva e a poupar tempo.

Não sei bem como ou por onde, mas em 2016 chegou para mim uma forma de organização diferente das que conhecia até então: o método Bullet Journal (BuJo), que prometia ser uma ferramenta flexível e eficaz, justamente o que eu precisava. A metodologia foi criada pelo americano Ryder Carroll, um designer de produtos digitais, que sofria com dificuldade de aprendizagem. Em busca de alternativas para ser mais produtivo e focado e depois de muitas tentativas e erros, Carroll criou um método simples de organização. Mais do que isso, o BuJo é uma ferramenta para praticar o que o autor chama de “a arte de viver intencionalmente”.

“Embora exija um caderno, o Bullet Journal® é uma metodologia. É melhor descrito como uma prática de atenção plena disfarçada de sistema de produtividade. Ele foi projetado para ajudá-lo a organizar o seu “o quê” enquanto você permanece consciente do seu “porquê”. O objetivo do Bullet Journal é ajudar seus profissionais (Bullet Journalists) a viverem vidas intencionais, produtivas e significativas.”

Ryder Carroll, O método Bullet Journal: Registre o passado, organize o presente, planeje o futuro


Seguindo os passos encontrados no site oficial do método, comecei meu primeiro caderno em janeiro de 2017. A capa era preta, a letra vacilante e as experimentações para além do que Ryder Carroll sugeria eram raras. As páginas eram pontadas e eu ia preenchendo cada uma delas na esperança de conseguir realizar os sonhos e projetos que não saiam do papel, seja por falta de algo ou pela multipotencialidade que me habita (mais sobre isso aqui).

Praticar o BuJo durante esse primeiro ano, me fez vislumbrar como minha mente funcionava e desencadeou alguns processos internos. Fiquei ainda mais perdida e as coisas ao meu redor se intensificaram gerando impacto em tudo o que eu fazia, mas com o tempo algumas delas começaram a assentar. Na época, não percebi a relação entre a movimentação da minha vida e o novo método de organização adotado, mas hoje enxergo nitidamente. Usei o caderno até o fim e fiz o fechamento anual sugerido pelo criador da metodologia, simples e eficaz, e percebi que isso me trouxe clareza e ajudou a planejar o ano seguinte.

Meus Bullet Journals de 2017 a 2019. Foto: Tamires Belluzzi

Nos próximos BuJos fui incrementando a parte artística, usando espaços para praticar outras habilidades que queria desenvolver como ilustrações, acompanhamento de hábitos e coleções, comemorar conquistas durante o ano e entender a forma como eu pensava. Ao longo do caminho, algumas coisas foram acrescentadas e outras foram remodeladas ou retiradas dos cadernos. Quando ia para reuniões, levava o BuJo e a reação era diversa: variava de admiração a descrença por “perder tanto tempo fazendo isso”. Já me pediram para fazer para vender e perdi as contas de quantas vezes ouvi que “isso não é para mim, não tenho talento”, o que acho uma pena porque o método é muito mais do que uma agenda bonita e descolada e não precisa ter nenhuma habilidade especial para desfrutar dos benefícios que ele oferece.

Meus Bullet Journals de 2017 a 2019. Foto: Tamires Belluzzi
Meu Bullet Journal de 2019. Foto: Juliana Lai

No início desse ano, surgiu para mim a possibilidade de ensinar a metodologia para outras pessoas, de forma fluida e despretensiosa. Uma pessoa de bastante influência em uma rede social estava na mesma reunião que eu e decidiu filmar e postar algumas páginas do meu caderno (obrigada, Talita!), pronto a ideia explodiu. O interesse foi tão grande que decidi montar uma oficina para ensinar o método e falar sobre a minha experiência com ele. Procurei uma amiga que recentemente tinha fundado um clube criativo para propor a parceria, ela aceitou e trabalhamos muito para materializar a ideia.

Primeira edição da oficina Bullet Journal para Iniciantes em Maringá — PR. Foto: Tamires Belluzzi

No último domingo, dia 12 de janeiro, aconteceu a primeira oficina de Bullet Journal para iniciantes facilitada por mim e pela Tamires. Foram 3 horas falando sobre o método, possibilidades e as nossas experiências durante os anos (eu pratico desde 2017 e ela desde 2016). Além disso, as 14 participantes puderam praticar os passos básicos da ferramenta em uma série de exercícios recheados de trocas de referências, tentativas e erros. Entregamos um caderno personalizado para cada uma e disponibilizamos canetas, tesouras, réguas e outros acessórios para que elas pudessem experimentar à vontade.

Ao longo da manhã, falamos sobre organização e planejamento, mas muito mais do que isso. Tratamos de propósito, autocompaixão, flexibilidade e autonomia. Fizemos novas conexões e nos divertimos. Agradeço a disponibilidade, abertura e confiança de todas que estiveram conosco para aprender com leveza e diversão. Foi muito gostoso e o tempo voou!

Primeira edição da oficina Bullet Journal para Iniciantes em Maringá — PR. Foto: Tamires Belluzzi

Reunir pessoas para se desconectar das tecnologias e fazer algo com as mãos é parte do meu trabalho com o LEGO® Serious Play®, por isso sei da importância e do impacto que esse tipo de experiência tem nas pessoas. O que eu não havia imaginado era poder oferecer esses benefícios através de um hobby meu, uma ferramenta que uso todos os dias e que não tenho dúvidas de que funciona. Esses pequenos cadernos são a minha forma de pensar materializada, organizada de forma esteticamente agradável porque descobri que isso é importante para mim, e olhando para eles vejo um retrato da minha evolução nos últimos 3 anos.

Primeira edição da oficina Bullet Journal para Iniciantes em Maringá — PR. Foto: Tamires Belluzzi

O BuJo me ajuda a pacificar o falatório mental, ressignificar a minha relação com os erros, me cobrar menos — e consequentemente cobrar menos as pessoas ao meu redor, entender a minha forma de pensar, perceber quais são as minhas prioridades e valores, me conectar com a minha criatividade, ajustar rotas ao longo do caminho, relembrar coisas boas e comemorá-las, fazer um balanço do ano que me ajuda a aprender com o que passou e a planejar o ano seguinte de forma mais significativa e real.

Conforme vamos avançando na prática do método, trabalhamos conceitos complexos como imperfeição, radiância, propósito, desconstrução e inércia. Vamos nos conhecendo melhor e aumentando a nossa autonomia, o que vai impactar todas as áreas da nossa vida e as pessoas com as quais convivemos, no final das contas esse “simples” método é de uma riqueza sem tamanho e não começar por medo de não ter talento artístico não pode ser uma desculpa. Aqui vão algumas dicas para iniciar:

  • comece simples e com o que você já tem
  • planeje algumas páginas, não todas
  • não pense ou pesquise demais
  • adapte a você
  • experimente e se permita errar
  • curta o processo e aprenda durante as tentativas
Meu Bullet Journal 2019. Foto: Tamires Belluzzi

Começar algo novo é desafiador, nosso cérebro foi feito para fazer as coisas de forma que poupe energia e faça mais funções com menos esforço, por isso lê a nova tarefa como uma ameaça e começa a nos mandar mensagens de alerta. Respire fundo e avise sua mente que você está seguro e determinado a experimentar algo novo, ela vai ter que se adaptar. Depois comece, mesmo sem saber muito bem por onde ou porque, comece simples. Apenas salte e a rede vai aparecer, garanto que vai valer a pena.

“A simplicidade é o último grau de sofisticação”

Leonardo Da Vinci


Para ver mais fotos da oficina e depoimentos de participantes, acesse o meu Instagram (mayarabortolotto) e o perfil da Tre Sorelle (tresorelle.co)

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