Encontrando o rio: um retorno ao fluxo criativo

por jan 7, 2020Reflexões0 Comentários

“Começos genuínos se iniciam dentro de nós, mesmo quando são trazidos à nossa atenção por oportunidades externas.” (William Bridges)


A arte é uma das coisas que mais me emociona na vida. Sou sensível a cinema, pintura, escultura, música, dança, fotografia e uma infinidade de áreas relacionadas. Não é raro me ver com os olhos marejados ou completamente atônita quando estou vivendo momentos que envolvam arte. Acredito que essa paixão tenha começado através da dança, tenho fotos dançando desde muito nova. Não me lembro, mas suponho que comecei a dançar logo que consegui parar em pé ou dar os primeiros passos. Ouço relatos de familiares dizendo que eu colocava as mãos perto do corpo e me balançava para lá e para cá. Mais tarde fiz aulas de ballet, jazz e dança moderna, me formei e só parei quando entrei na universidade para cursar Arquitetura e Urbanismo. A arte também permeia meu lazer (cinema, bullet journal, literatura, atividades manuais como bordado e desenho, são alguns deles) e o meu trabalho, que envolve criação desde a época da graduação. Apesar de oscilar entre acreditar que sou criativa e relevante e que sou uma farsa (mais sobre isso aqui), por anos fiz projetos arquitetônicos e de interiores, comunicação visual, branding e outros projetos paralelos que envolvem criatividade.

“A arte é importante porque ela celebra as estações da alma, ou algum acontecimento trágico ou especial na trajetória da alma. A arte não é só para o indivíduo; não é só um marco da compreensão do próprio indivíduo. Ela é também um mapa para aqueles que virão depois de nós.”

Clarissa Pinkola Estés. Mulheres que correm com os lobos.


No meu aniversário de trinta anos, ganhei de presente o livro “O caminho do artista” (obrigada Thais e Luigi), que morou em minha prateleira por dois anos, até novembro do ano passado, quando resolvi tirá-lo de lá e ingressar na jornada de resgate criativo proposta por Julia Cameron. Eu não tinha um autodiagnóstico sólido de bloqueio criativo, mas me encontrava cansada e desmotivada. Parecia que eu não conseguia me expressar como gostaria, nem materializar o que estava dentro de mim. Somado a isso, os processos internos estavam intensos e eu sentia que estava pifando, estava exausta, estressada e ansiosa demais, me cobrando por produzir mais, trabalhar por muitas horas e criar, criar, criar.

“Nossos sonhos nos escapam. Nossa vida parece sem graça. Com frequência, temos grandes ideias, sonhos maravilhosos, mas não conseguimos concretizá-los. Às vezes temos desejos criativos específicos que adoraríamos realizar (…). Outras vezes nosso objetivo é mais difuso. Sentimos fome de algo que poderia ser chamado de vida criativa — um sentido de criatividade que se expande pela vida profissional e naquilo que compartilhamos com nossos filhos, cônjuges e amigos.”

Julia Cameron. O caminho do artista: Desperte seu potencial criativo e rompa seus bloqueios.

Sentia que estava prestes a explodir e percebi o corpo me dando todos os sinais de que estava estafado, entendi que precisava desacelerar. Comecei a prestar atenção ao que estava a minha volta, usando a técnica dos cinco sentidos para voltar ao presente e acalmar a ansiedade. As coisas foram perdendo seu senso de urgência e consegui abaixar o volume ensurdecedor do falatório mental e do sabotador interno, então consegui ouvir a sutil voz da intuição e perceber as sincronicidades que aconteciam ao meu redor. Em mais de uma ocasião, “O caminho do artista” apareceu para mim e decidi que era hora de mergulhar nessa ferramenta que prometia trazer de volta o meu fluxo criativo.

“Assim como o sangue é uma realidade do seu corpo físico — e não uma invenção -, a criatividade é uma realidade do seu corpo espiritual — e não fruto da sua imaginação”

Julia Cameron. O caminho do artista: Desperte seu potencial criativo e rompa seus bloqueios.


Quando iniciei a leitura, postei em uma rede social a respeito e uma amiga que tinha parado o livro no meio disse que ia retomar, isso me trouxe uma parceira de caminhada e me deu folego extra para explorar os desafios propostos. Outra coisa bacana que aconteceu por causa dessa postagem, foi o contato com a Luiza Voll, que sigo no Instagram e uso como inspiração em muitos momentos. Ela me enviou uma mensagem perguntando como estava o meu processo com o livro e isso me deixou nas nuvens, porque foi ao ver que ela estava fazendo “O caminho do artista” que decidi tirá-lo da prateleira e começar a jornada. Trocamos algumas mensagens e fiquei com a certeza de estar no lugar certo.

O livro á um programa de doze semanas com temas e exercícios diversos para nos reencontrarmos com o artista que vive dentro de cada um. Se você pensa que não é criativo, sinto te desapontar ao dizer que você é, todos somos, cada um a sua maneira. É parte do ser humano criar e quando não o fazemos, bloqueamos a nossa força vital, ficamos endurecidos e desesperançosos. O que vem a seguir é um encadeamento de dificuldades e estagnação em diversas áreas da vida até que, finalmente, decidimos tratar a raiz do problema.

“Por que todos nós deveríamos usar nosso poder criativo (…)? Porque nada torna as pessoas mais generosas, alegres, vivas, corajosas, cheias de compaixão e indiferentes a brigas e à acumulação de objetos e dinheiro”

Brenda Ueland. Se você quer escrever, citada por Julia Cameron em O caminho do artista.

Para salvar os criativos bloqueados, Julia propõe, entre diversos exercícios, um muito simples e poderoso: as páginas matinais, ou seja, escrever à mão três páginas do que estiver na sua cabeça ao acordar todos os dias, pronto. A simplicidade da atividade dizima quase todas as desculpas e permite que todos comecem onde estão, da forma como podem no momento e com o que tem. É uma espécie de drenagem cerebral para esvaziar sua mente e nada é irrelevante a ponto de não ser incluído. Esse exercício irá revelar as áreas problemáticas e preocupações.

Além das páginas matinais, a autora nos incentiva a ir ao “Encontro com o artista”. Essa atividade consiste em passar tempo sozinho com o seu artista, bastando duas horas por semana. Ela comenta que esse compromisso tentará ser cancelado e adiado por nosso sabotador interno, mas que devemos nos manter firmes e cumprir com o combinado. Pode ser uma ida a papelaria ou um passeio no parque, coisas que custam tempo e não dinheiro, porque o seu artista precisa ser ouvido. Esse exercício irá nos ajudar a encontrar soluções e a formar reservas para usar no momento de materializar nossa arte.

“A fim de ter um relacionamento real com a nossa criatividade, devemos dedicar tempo e cuidado para cultivá-la. Nossa criatividade usará esse tempo para nos confrontar, contar segredos, nos conhecer melhor e planejar.”

Julia Cameron. O caminho do artista: Desperte seu potencial criativo e rompa seus bloqueios.

Outra parte importante do processo é o que Julia chama de “Encher o poço”, diz que o cérebro do artista é sensorial e que a magia é essencial para a arte. A autora incentiva a irmos atrás do que nos intriga e a seguirmos nosso senso de mistério, o que me parece muito com sussurro de nossa intuição soprando dicas aos nossos ouvidos e que só conseguimos escutar se estivermos atentos. Ela fala da importância da atenção focada para enchermos o poço e como as atividades regulares e repetitivas como dirigir, lavar louça ou tomar banho, comumente nos trazem soluções para problemas que precisam de criatividade.

“O cérebro artista é sensorial: visão e som, cheiro e gosto, toque. Esses são os elementos da magia, e a magia é a matéria elementar da arte. Para encher o poço, pense em magia. Pense em deleite. Diversão. (…)

Faça o que o intriga, explore o que lhe interessa; pense em mistério, e não em maestria. (…)

Lembre-se, a arte é uma atividade do cérebro artista. Esse cérebro é alcançado por meio do ritmo, da rima, e não pela razão”

Julia Cameron. O caminho do artista: Desperte seu potencial criativo e rompa seus bloqueios.


Muito além do desbloqueio criativo, “O caminho do artista” é uma jornada de retorno a si mesmo e isso pode ser assustador em diversos momentos. Ao longo do livro, algumas atividades foram mais desafiadoras para mim, seja por falta de tempo ou por qualquer desculpa externa que inventei para me afastar do processo, por isso acabei ficando em um mesmo capítulo por muito mais do que sete dias e tudo bem. Quando retornei para o processo, vi os meus conflitos recém passados descritos nas páginas, sincronicidade pura, o que me fez rir e chorar ao mesmo tempo, num misto de incredulidade e alívio, enquanto lia (Julia diz que a sincronicidade é parte do processo e demonstra que estamos no caminho certo). Atualmente, estou na quinta semana que fala como nos sabotamos, restringindo as nossas possibilidades e limitando as coisas boas que podem acontecer, me identifico com isso. Há, ainda, um exercício de privação de leitura, o mais difícil para mim até agora. Nessa semana, percebi que uso a literatura para me distrair de sentimentos incômodos, pessoas entediantes e situações onde sinto medo e ansiedade. Ela também me priva de prestar atenção ao meu redor, ao movimento da vida e encher meu poço.

“Somos mesquinhos com nós mesmos. E, se recebemos uma dádiva além de nossa imaginação, muitas vezes a devolvemos”

Julia Cameron. O caminho do artista: Desperte seu potencial criativo e rompa seus bloqueios.

Ao longo de dois meses de “O caminho do artista”, percebi como a minha criatividade voltou. O fluxo criativo tem me abastecido de energia para viver, coragem para me expressar, para experimentar, para ser vulnerável e autêntica. Tenho aprendido a lidar melhor comigo e com meu artista, bem como com as pessoas a minha volta e seus artistas, tantas vezes bloqueados e calados, gritando por atenção como crianças birrentas. Esse processo me devolveu a liberdade de fazer coisas que gosto “só” para me sentir bem e o direito ao descanso. Notei que consigo identificar quando não estou alinhada com a tarefa, me dou a oportunidade de fazer algo que queira naquele momento e quem sabe voltar para o afazer depois. Percebi ainda que produzo melhor e escolho empregar meu tempo em projetos em que acredito e me realizam. Não se engane, ainda enfrento diversos contratempos e quando a espiral do processo me coloca em lugares desafiadores, dou um salto de fé, como recomendado no livro, me lanço no vazio e dou o primeiro passo esperando que o chão apareça sob meus pés.

“Muitas vezes as pessoas tentam viver a vida ao contrário: tentam ter mais coisas ou mais dinheiro a fim de ter mais do que elas querem, a fim de serem mais felizes. Mas a forma como a vida funciona é o contrário. Primeiro, você precisa ser quem realmente é, para então fazer o que precisa a fim de ter o que realmente quer.”

Margaret Young, citado por Julia Cameron em O caminho do artista: Desperte seu potencial criativo e rompa seus bloqueios.

Postado em 07 . 01 . 2020 no Medium

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *