Educação e superdotação: reflexões com metodologia LEGO® Serious Play®

por out 31, 2019Altas Habilidades, LEGO Serious Play0 Comentários


Ao ser convidada pela Unicentro e pela Smart Play para participar do II Seminário Internacional de Criatividade, Talento e Superdotação, que aconteceu juntamente com a II Jornada Paranaense de Altas Habilidades / Superdotação (AH / SD), que aconteceu de 8 a 11 de outubro desse ano em Guarapuava / PR, fiquei com frio na barriga. Conhecia pouco sobre o assunto e me perguntei: “como eu poderia contribuir com essa discussão?” Ao mesmo tempo, estava feliz pela oportunidade de conhecer esse universo através da participação no evento e como uma outra facilitadora iria comigo, fiquei mais tranquila. No final das contas, houve alguns cortes de verba e acabei indo sozinha.

Conduzi uma dinâmica para quinze pessoas na qual o método LEGO® Serious Play® (LSP) foi utilizado para discutir os desafios dos participantes na área de AH / SD. Na lista de participantes que recebi previamente constavam profissionais, estudantes e ouvintes, mas fui surpreendida com a participação de oito alunos com altas capacidades. Explico: esses estudantes (alguns menores de idade) foram para o Seminário juntamente com a professora responsável pela sala de recursos multifuncionais, que eles frequentam no contraturno da escola em Cascavel, e não é comum que estejam nesse tipo de evento. Geralmente, os participantes são pessoas que estão na universidade, professores e pesquisadores interessados no tema, por isso foi surpreendente e enriquecedor tê-los conosco.

Durante quatro horas, fizemos algumas rodadas de: pergunta / desafio; construção (um modelo 3D com blocos de LEGO®); compartilhamento (falar sobre seu modelo) e reflexão, os quatro passos básicos que compõem a aplicação do LSP. Uma das regras da metodologia é a participação 100–100, ou seja, todos constroem, todos falam e todos ouvem os colegas. O storytelling e a utilização de metáforas ajuda a explorar as possibilidades do modelo e a compartilhar percepções, sentimentos e ideias, além de propiciar o surgimento de insights.

Em um dos desafios propostos, o participante deveria modificar um modelo predeterminado (eles haviam escolhido e reproduzido uma das construções disponibilizadas em uma folha impressa) para contar uma história sobre o que o inspirava na área de AH / SD. As construções eram individuais e um dos alunos disse que se sentia como uma tartaruga com asas, pois apesar de sua aparência modesta e tranquila, sua mente lhe dava asas para voar.

Participantes montando modelos com instruções (foto: arquivo pessoal)

Em outro momento, pedi que construíssem o que seria o pesadelo para um aluno na sala de aula ou no contexto do aprendizado. Nessa rodada de compartilhamentos, pude acompanhar mais as falas dos alunos que expuseram sentimentos difíceis e experiências desagradáveis pelas quais haviam passado. Um deles construiu uma prisão ao redor de si, exemplificando a maneira como se sente em sala de aula. Outra participante se colocou no centro do modelo, cercada por olhares e barreiras que não a deixavam sair daquela posição vulnerável e desconfortável.

Modelo de participante sobre o pesadelo na sala de aula (foto: arquivo pessoal)

Um terceiro aluno comentou sobre o bullying sofrido e o representou como uma lâmina giratória. Enquanto manipulava essa parte do modelo, explicou:

“Isso representa realmente um, algo para cortar mesmo, algo para ferir. Isso é o bullying, está na visão da professora, mas ela não se importa, deixa acontecer. E isso machuca, mas no fim não importa, porque é assim que o professor se sente. Quanto mais essa lâmina fica querendo atacar esse indivíduo, quanto mais ela destrói esse indivíduo, menos essa parte aqui, que fica escondida debaixo de tudo, a iluminosidade do aluno, perde o brilho, mais ela fica fraca. E é recuperável, mas quase impossível de se recuperar. Isso para mim foi o pesadelo da escola.”

Modelo de participante sobre o pesadelo na sala de aula (foto: arquivo pessoal)

Entre as demais construções e compartilhamentos, ouvi sobre a necessidade de novas formas de ensinar: aulas mais dinâmicas e alinhadas com os conteúdos atuais. Também trouxeram o sentimento de conquista quando conseguiam transformar o conteúdo da aula em conhecimento. Um dos alunos falou sobre se sentir diferente entre os colegas e sobre os desafios para atingir seus objetivos no âmbito escolar.

Modelo de participante sobre seu melhor momento no contexto da educação (foto: arquivo pessoal)
Modelo de participante sobre seu melhor momento no contexto da educação (foto: arquivo pessoal)

Algumas das demandas presentes no contexto escolar citadas foram: comprometimento dos professores, comunicação escola-família, respeito a individualidade, educação criativa divertida, autoritarismo, capacitação de professores, saúde mental e cultura escolar. Essa dinâmica fez surgir uma discussão importante a respeito da relação aluno e professor dentro da sala de aula. Os alunos puderam externar seus sentimentos e percepções, como não se sentiam vistos ou ouvidos pelos professores. Uma professora também se expressou contando sobre a frustração presente no corpo docente e a falta de comprometimento dos colegas. Depois de refletirmos sobre todas as construções e compartilhamentos da manhã, encerramos as atividades.

Arrumamos tudo e saí dali muito feliz com o resultado desse trabalho! Promover um espaço seguro para que os participantes compartilhassem seus sentimentos e percepções foi importante para que pudessem expor suas vivências e trocassem experiências, diminuindo as barreiras entre professor e aluno. Soube que muitas ideias surgiram depois da dinâmica, entre elas a de fazer um congresso para os alunos com AH / SD. A respeito do minicurso, uma das participantes disse:

“A minha experiência na oficina foi maravilhosa. Eu, enquanto profissional da psicologia, estive em uma mesa com adolescentes e um adulto com altas habilidades, pude ver de perto o alto potencial criativo desses alunos, eles criaram representações muito complexas, utilizando vários elementos que realmente expressaram a realidade de cada um deles. Fiquei admirada em ver o quanto esse trabalho com o LEGO® pode ser uma importante ferramenta de expressão para todos, mas principalmente para eles. Trabalho com adolescentes e adultos superdotados no consultório de psicologia há mais de 3 anos e posso dizer que um dos maiores desafios que encontro com esse público é a dificuldade em se expressar e entender os próprios sentimentos. Gostei muito da experiência e não vejo a hora de ter outra oportunidade de contato!”

Participantes do minicurso com metodologia LSP® facilitado por mim na Unicentro em Guarapuava / PR (foto: arquivo pessoal)

Outro grande desafio que os alunos com AH / SD enfrentam é a invisibilidade, por não serem identificados, não são encaminhados para profissionais que os ajudarão a desenvolver seu potencial e ajudar a lidar com os desafios relacionados ao seu alto potencial. Esses estudantes, identificados ou não, são acometidos por um sofrimento psíquico e emocional tão grande que acham um castigo serem superdotados. Muitos não sabem lidar com suas habilidades e acabam desenvolvendo agressividade, comportamentos inadequados, ansiedade, depressão e até cometem suicídio.

Trabalhos como esse são importantes para darem voz aos estudantes e permitirem a identificação de casos que necessitam de intervenção. Outras iniciativas como rodas de conversa, atendimento psicológico em instituições de ensino, campanhas de conscientização sobre superdotação e integração de alunos com altas habilidades e comunidade também são bem vindos. É muito importante que o jovem possa contar com o apoio da escola e da família para expressar suas necessidades, desenvolver seus potenciais, levar uma vida autônoma e contribuir com a sociedade com sua visão única e alta capacidade de resolução de problemas de maneiras inovadoras.

Postado em 31 . 10 . 2019 no Medium

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *