Mayara Bortolotto

Montanha

“Deixa o olho acostumar”, ela disse e eu, de lanterna em punho, assenti em silêncio. Equilibrando a pesada mochila nas costas, foquei no ar que entrava e saía dos pulmões e deixei os olhos se habituarem a escuridão ao meu redor. Era noite e estávamos em meio à natureza, caminhando por uma trilha íngreme e pedregosa debaixo de chuva. Confiando em minha amiga e seus anos de experiência na montanha, andei durante parte da trilha sem acender a lanterna e sem enxergar nada um palmo além do meu nariz. Mais tarde, descobri que mesmo com o equipamento aceso dava para ver pouca coisa ao redor, mas era possível ouvir com clareza o rio e os insetos.

Subíamos em direção ao Parque Estadual Pico do Marumbi, uma reserva em Morretes no Paraná, era a segunda vez que eu viajava para lá, mas nunca havia feito esse trajeto antes. Em 2020, fomos de trem e descemos em frente à guarita do Parque. Dessa vez, apesar da minha inexperiência, fui animada com a possibilidade de subir a montanha, aprender mais sobre o estilo de vida dos montanhistas e descobrir como me sairia no desafio de subir a trilha que levava à guarita do Parque. Enquanto caminhávamos, eu sabia que seriam cerca de 90 minutos em uma estrada de terra íngreme e ladeada pela mata fechada. Depois da guarita, ainda teríamos que subir mais um pouco para finalmente chegar a cabana onde ficaríamos hospedadas, um desafio potencializado pela noite e pela chuva.

Logo no início da trilha, eu já tinha sido devorada pelos pernilongos (contamos 26 picadas só no braço direito – sim, passei repelente) e me encontrava exausta depois de um dia inteiro de viagem, menstruando e sem almoço nem janta, somente duas empadas e outros aperitivos ingeridos pelo caminho. Ainda assim, consegui fazer todo o trajeto sem precisar de ajuda e fiquei orgulhosa de mim! Eu e minha amiga vencemos os intensos desafios da primeira trilha com parceria e persistência.

No primeiro dia após a chegada, quase não saímos da cabana por causa da chuva ininterrupta. No segundo dia, houve uma brecha, mas não dava para subir a montanha e fiquei um pouco frustrada. Apesar disso, eu estava animada por andar pelo Parque sem me encharcar. Agradecemos o tempo aberto, passeamos pelos caminhos que levavam às casas, arrumamos as mochilas e nos despedimos da cabana. Era um lindo dia de sol, mas isso não tornou a descida mais fácil do que a subida, pois a mochila pesava ainda mais do que dois dias antes, se é que era possível. Pelo menos pude contemplar a natureza durante o caminho e escolher uma camisa de manga longa além da proteção do repelente para o trajeto de volta ao carro.

Mais tarde, admiramos as belezas da estrada da Graciosa e voltamos à Curitiba um pouco desorientadas com a intensidade da viagem ao Parque. Desde o primeiro convite, em 2020, a Marcia diz que o Parque do Marumbi é um lugar mágico, vi e senti toda a magia quando estive lá e a sinto reverberando em mim por dias depois de voltar. “As idas ao Marumbi são processos terapêuticos”, minha amiga diz e eu concordo com veemência.


Foto: Stephany Lorena