Mayara Bortolotto

Micro

Meu eixo é para frente, percebo o peso na ponta dos pés, pronta para correr ou voar.

Erguer-se, como se ao elevar o corpo, ascendesse também o espírito. Tentar enxergar mais longe, ampliar o campo de visão e encontrar respostas para as muitas perguntas que tenho.

Anos na ponta dos pés, a bailarina visceralmente incrustada e eu-pássara sempre pronta e prestes a voar.

Cadê meu ninho? Onde descanso? Cansa a posição de ataque. O instante entre o preparo e a corrida prolongado em demasia. Cadê o tiro? Cadê o voo?

Um instante e o peso foi para os calcanhares, pendulou e me senti um pouco desequilibrada. Que lugar novo e interessante é esse? Como me sinto quando a base é mais firme? Me sinto estranha, puxada para trás, pesada. É falta de costume ou medo de não conseguir voar mais? É medo de ficar? Por que eu sempre tenho que ir?

O estômago está quente. Acabei de tomar café.

A mandíbula está tensa de novo ou ainda?

Uma leve tontura, uma pontada no topo da cabeça.

Abri os olhos lentamente.

O esquerdo desgrudou os cílios antes do direito.

Fico parada mais um tempo.

Dobro corpo estalos giro o pescoço estalos.


Texto escrito a partir do exercício de observação do corpo proposto pela Mayara Blasi nos encontros de A Escrita de Si II. Anotações no caderno:

Parado não é parado

Micromovimentos

Gravidade / peso

Não fazer é importante

Por que não faço mais disso?

Foto: Michael Schiffer