Mayara Bortolotto

Chover no corpo

Comecei chovendo de levinho, chuva mansa de pontas de dedos no rosto.

Fui para o pescoço, voltei pelos cabelos. Acho mágico ver com as mãos.

Cada risquinho da digital, um olho. Os mais sensíveis que conheço.

Deixo chover no corpo todo, gotas suaves trazendo a tranquilidade que pedi para contrabalancear a tempestade de dentro.

Aos poucos outras partes das mãos foram ganhando o corpo, ora toca ora não toca.

Os pelos eriçando, arrepio.

Carinho nos braços entre mãos por dentro do braço na lateral estômago beirando o arame encoberto de renda do sutiã. A renda a pele arrepiada o toque macio e o sentir duas vezes: da mão que acaricia e do corpo que é acariciado. Mais evidente ainda com a mão não dominante, a esquerda surpreendentemente hábil e sutil.

Carinho por trás das pernas contornando os quadris descendo pelas panturrilhas em cima dos pés um beijo de palmas e colos calor reverência para eles.

Obrigada por me sustentarem.


Texto escrito a partir do exercício de chover no corpo proposto pela Mayara Blasi nos encontros de A Escrita de Si II. Ela emprestou esse exercício da Mariana, minha colega de turma.

Foto: Geetanjal Khanna