Mayara Bortolotto

Mudança

Eu levava uma vida dividida: metade de mim morava com o meu pai e a outra metade com a minha mãe. Depois de um tempo fui morar na minha mãe de vez, fiquei com ela uns 8 meses. Algum incidente com cordão umbilical e pescoço me forçaram a sair da casa quentinha e aconchegante que ocupei por menos de um ano. Fui para um lugar muito claro e barulhento, acho que não gostei muito porque minha mãe diz que eu chorava demais.

Não lembro de muita coisa dessa época, a primeira lembrança de casa que tenho é emprestada de uma foto. Estou na lavanderia com a minha mãe e com a minha irmã, três crianças. Deixei minha mãe morando na lavanderia um tempão durante as sessões de terapia de regressão, mas isso é outra história.

Depois veio uma casa de madeira, onde tinha música do Paralamas do Sucesso (aquela do marinheiro), bolacha de nata da vó, carneiro de estimação, balanço e caça a ovos de Páscoa escondidos pelo avô.


Mais tarde, mudamos para um apartamento, duas torres com uma quadra no meio. Eu andava de roller amarelo neon e roxo, chupava o “melzinho” das flores e explorava a caixa d´água. A criançada fervia no pátio, entre rampas e escadas tinha pega-pega e esconde-esconde todos os dias. Chegava do ballet e ficava por ali mesmo, de sapatilha e tudo. Perdi a conta de quantas sapatilhas não resistiram as brincadeiras, mas desconfio que não foram muitas porque não fiz nem um ano de aulas e logo mudamos de novo.


Depois que papai faleceu fomos para um prédio no centro, sem parquinho nem crianças. Ficávamos pulando elástico na sala, entre cadeiras e outros móveis. Tinha video game, jogos de tabuleiro e muita imaginação. A babá que também cuidava da limpeza e da comida nos levava a pé até a escola no período da tarde. Não deu para aprender a andar de bicicleta ali, mas fizemos muitos shows em frente ao ventilador, rodando lanterna acesa no quarto escuro.

Alguns anos se passaram e fomos morar com os meus padrinhos porque mamãe foi para o Japão e não queria que parássemos de estudar. Voltamos para o apartamento anterior quando minha mãe retornou ao Brasil alguns anos depois. Regressamos para a minha madrinha quando mamãe foi para o Japão pela segunda vez, eu ia para a faculdade agora. Mais uma vez voltamos para o apartamento do centro com mamãe. Outra vez para a madrinha e depois mamãe.

Tokyo Disneyland em 2011

Daí, todo mundo foi para o Japão e eu fiquei sozinha aqui. Mudei as coisas de todos para outro apartamento no centro, engordei 10 quilos e vivi entre caixas por muitos meses deprimentes. Então fui para o Japão também e fiquei três meses vivendo no lugar que eu morria de medo de ir, porque minha mãe usava de ameaça para caso não nos comportássemos enquanto morávamos com os padrinhos: “vou te trazer para cá se você der trabalho aí”, ela dizia nas raras ligações. Ligar era muito caro, trocávamos cartas que achei esses dias. Amei o Japão.

Voltamos para o Brasil e mudamos para uma casa. Passei muito mais tempo morando em apartamento do que em casa durante a vida. Foi mágico. Ainda por cima, era perto do meu trabalho. Uma pena que atropelamos minha Shih Tzu ao entrar com o carro na garagem pouco depois de mudarmos. A saudade da Bolinha dói até hoje. Quando minha avó chegou do Japão e foi morar com a gente, mudei de quarto.

Bolinha e eu

Alguns romances, sofrimento adolescente, muitas lágrimas e 10 anos de solteirice deram lugar a uma história de amor que escalonou bem rápido e em seis meses de namoro veio a ideia de morarmos juntos. O primeiro apartamento foi encontrado de brincadeira e era tão lindo que os planos de morarmos juntos foram adiantados. Fui, morta de medo, e vivi muito amor e descobertas a dois por um ano.

Mudamos para outro apartamento no mesmo prédio com o dobro do tamanho do primeiro, ou seja, uns 70 m². Era o apartamento que a mãe dele ocupava no 19° andar e nessa época o amor estava um pouco baqueado. Algo muito importante ficou no pequeno 1104, mas eu ainda tinha disposição para levar o relacionamento a diante. Tempos depois, mudamos para um apartamento charmoso e convenientemente mais longe das nossas famílias. Foi ótimo e péssimo. Muitos desafios depois, rompi o noivado e fui morar na casa de uma amiga.

Ela era a minha metade, de verdade. A minha melhor amiga dos últimos 20 anos, ou seja, quase a vida toda. A família dela era a minha família. Minha amiga não morava mais aqui e morei por 4 meses com sua irmã e mãe até alguma coisa acontecer e tudo mudar, para sempre. Eu ainda não sei o que foi. Doeu igual a morte.

Meu aniversário no Japão em 2011

Voltei para a casa da minha mãe e ocupei o quarto que era da minha irmã. Foi difícil, nossa relação não era boa. Foi desafiador, enlouquecedor e transformador. Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Começou com conversas atravessadas e falta de intimidade, era tão desconfortável. Aos poucos fui me abrindo e ela também, contei tanta coisa que nunca tinha dito e ouvi a minha mãe com o coração aberto pela primeira vez na vida. O emaranhado de culpa, segredos e ressentimentos foi se transformando em parceria, perdão e respeito. Passamos a cozinhar juntas, falar sobre qualquer tema com liberdade e ocupar nossos lugares de mãe e filha. Eu adorava encerrar meus dias com nossa cantoria desafinada de clássicos dos anos 80 e 90 e dar um beijo de boa noite nela e no meu irmão.

Encontrei um apartamento de brincadeira. Não tinha plano nem prazo. Só tinha desejo de casa futura e uma vozinha lá no fundo falando que era hora. Minha mãe me ajudou com tudo. Sem ela, eu não estaria escrevendo agora do meu novo cantinho. Não sei como agradecer, mesmo. Ainda tem mais espaço vazio do que móveis, mas isso não me incomoda nenhum um pouco. Estou curiosa para ver o que vem pela frente. Sou toda possibilidade, como esse apartamento desmobiliado.


Foto: Jan-Niclas Aberle