Mayara Bortolotto

Querida mente


Uma das coisas mais bacanas que fiz nos últimos tempos foi me encontrar com outras pessoas para escrever, uma proposta chamada “A escrita de si”, facilitada virtualmente pela Mayara Blasi. Foram seis sábados onde ela propôs exercícios variados, nos estimulando a testar novas formas de pensar e escrever. Uma delícia! Esse texto nasceu nas minhas páginas matinais dessa semana e foi inspirado em uma das atividades propostas pela Mayara.

Andei seriamente incomodada com o fato de não conseguir parar de pensar, algo que percebo em mim há anos e que estou decidida a mudar. Por exemplo, se algo me acorda durante a noite, minha cabeça é invadida por pensamentos encadeados e não consigo voltar a dormir, é desgastante. Depois de uma dessas noites, resolvi escrever uma carta para o meu cérebro para ver se entramos em um acordo.



Querida mente,

Você é muito mandona.

Não gosto do jeito que me aborda e me sinto oprimida. Preferiria que trabalhássemos juntas ao invés de trabalhar para você.

O seu excesso de preocupações é desgastante, fico exausta de tanto pensar e tentar prever o futuro, sabe? Acho importante refletir sobre escolhas e atitudes, mas tantas análises estão me paralisando. Fico ansiosa e tensa.

Nossa vida anda cinza e engessada. O rosto tá contraído, o peito tá apertando.

Cansei, precisamos de uma mudança.

Sei que tive que amadurecer depressa depois que o papai morreu e achei que te usando mais ia conseguir as respostas que esperavam de mim. Eu estava enganada, me desculpe por te sobrecarregar e ser tão exigente com você. Todas as horas de estudo, práticas, concentração e pouca chance de erro te transformaram em uma juíza durona. Entendo de onde vem a cobrança que recebo de você hoje, mas esse nível de excelência está me fazendo infeliz.

Sei que está tão cansada dessa situação quanto eu, afinal de contas você vem trabalhando incessantemente há bastante tempo. Não é à toa que a estafa mental aparece em nossas vidas de tempos em tempos. Sem falar nas vezes em que me jogo em amores meia boa e comidas açucaradas disfarçadas de afeto. Quando você não está em forma, não faço escolhas muito boas, mesmo quando a intenção é.

Que tal descansarmos um pouco? Não sei como fazer isso ainda, mas diminuir a quantidade de estímulos parece ser um bom começo. Quem sabe privação de conteúdo por alguns períodos, parece bom, né? Vamos abrir espaço, soltar o controle e dar chance para espontaneidades nos surpreenderem. Vamos permitir que a sabedoria da natureza e do universo nos tragam o que precisamos. Vamos confiar. Vamos sorrir, faz tempo que não fazemos isso.

Vai ser um pouco estranho no começo, mas sei que vamos nos adaptar. Com o tempo você vai se sentir mais calma e descansada, estará pronta para dar o seu melhor quando for solicitada. Vamos formar uma equipe e tanto! Imagina quando todas as partes do corpo trabalharem juntas, vai ser lindo. Vai sim.

Com amor, Mayara


* Páginas matinais: escrever à mão três páginas do que estiver na sua cabeça ao acordar todos os dias, um exercício proposto por Julia Cameron em “O caminho do artista”. Para saber mais sobre desbloqueios criativos, leia “Encontrando o rio: um retorno ao fluxo criativo”.

Fotos: Michelle Tresemer e Siora Photography