Mayara Bortolotto

O mar e eu

No final do ano passado, tive o privilégio de estar com meus sobrinhos quando conheceram o mar. Com os pés na faixa de areia, acompanhei à distância o momento do primeiro encontro entre eles e quando, correndo em direção às ondas, aceitaram o convite do mar para brincar, foi tão lindo. Na época da viagem, eu estava muito atarefada e passar alguns dias fora atrapalhava os planos profissionais. Lembro que tive que deixar várias coisas por fazer para ir e fui porque sabia que era importante para a minha irmã: era a primeira oportunidade de viajarmos juntas em bastante tempo, ainda mais assim: nós e as crianças. É certo que eu precisava de férias, mas sabia que não seria o aconteceria nesses dias no nordeste porque tínhamos duas crianças sob nossa responsabilidade, uma autista e um bebê. Apesar dos obstáculos, eu fui e, enquanto estava parada na areia olhando para o horizonte, entendi por que tinha ido. Além de vivenciar um momento único da vida das crianças, percebi que estava ali para fazer as pazes.


Maria Clara em uma das piscinas de águas naturais de Porto de Galinhas
Davi brincando na praia em frente ao resort
Eu, Maytha e Maria Clara

O mar é para mim deslumbramento e atenção, talvez pelas histórias que ouvi os adultos contarem ou pelas advertências para não dar bobeira dentro da água quando criança. Nessa época, costumava passar as férias de verão no litoral com os meus padrinhos e primos, uma das coisas que mais adorava no ano. Perdia a conta do tempo quando tomava banho de mar, era tanto riso e água engolida que saia com a alma lavada e as pernas bambas de alegria. Essas memórias ficaram impregnadas no sentimento que tenho pelo mar. Depois de um tempo, acabamos nos distanciando e as lembranças preciosas se tornaram doloridas para mim, porque não existiam mais viagens, convívio e tradição de ir para a praia em família.

Voltei para o litoral anos mais tarde, entre amigos e em momentos de desafios pessoais: depressão, demissão e término de um romance. Não me lembro com precisão, mas acho que foi por aí que desenvolvi alergia a água do mar: minha pele ficava cheia de bolinhas vermelhas que inchavam e se transformavam em bolhas pelo corpo, causando ardência e incômodo. Isso se repetiu nos anos seguintes, nas viagens à praia com o meu noivo da época, onde vivi outros desafios que reforçaram a alergia. Parei de entrar no mar e nossa intimidade foi se perdendo, só mais tarde entendi que era uma reação emocional e que o meu corpo estava pedindo para olhar para essas feridas.


Vista da piscina de águas naturais depois da travessia de caiaque

No nordeste, depois dos primeiros dias e das infinitas idas e vindas dentro do resort, risos, choros, banhos, trocas de fraldas, mamadeiras e embalos de crianças insones de madrugada, consegui lá pelo quarto ou quinto dia de viagem, um momento a sós com o mar. Eu estava ali de novo encarando o cenário de tantos acontecimentos anteriores. Nosso encontro durou cerca de uma hora, disse o que estava no meu coração, ouvi o que ele queria me dizer e trocamos um longo olhar de cumplicidade. Revivi histórias e escolhas que fiz, pensei em como queria ser e disse em silêncio para ele. Peguei minha vida no colo e joguei no mar. Brinquei em suas águas mornas como não fazia há muito tempo, deixei algumas lágrimas em seu volume azul imenso e sai flutuando sem reação alérgica. Entendi que fui desaguar no mar, era um rio me lançando na imensidão azul para crescer e me tornar oceano.


Obrigada a minha irmã, Maytha, por fazer questão que eu estivesse nessa viagem <3

Foto: Ant Rozetsky