Mayara Bortolotto

Coragem, a minha palavra do ano em 2020

No dia 16 de fevereiro escolhi minha palavra desse ano, seguindo o ritual pessoal que faço há algum tempo (saiba mais). Nessa data, o planeta Mercúrio começava sua primeira retrogradação de 2020, o período é conturbado para as tecnologias e comunicação, também é momento de revisão e balanço da vida. Além disso, nesse dia compartilhei conhecimento e experiências com outras mulheres em uma oficina sobre Mandala Lunar (leia mais sobre isso) e havia participado de um evento para empreendedoras durante todo o dia anterior. Estava exausta e na TPM, as coisas estavam caóticas interna e externamente. Estava vivendo “na força da raiva”, como uma amiga costuma dizer. Por causa da demanda de trabalho sai da rotina, exigi demais de mim mesma e acabei ficando doente, me obrigando a desacelerar nos dias seguintes. Foi em meio a esse cenário que a palavra do ano chegou.

Andava pensando sobre ela, quando chegaria? A sensação que tinha era de que havia passado tempo suficiente do calendário gregoriano, afinal de contas o Carnaval estava ali, e a definição da palavra nada. Lembrei de não me cobrar, ela surgiria no momento oportuno. Aproveitei para perceber também que andava vivendo meio fora do tempo, numa sensação interessante e gostosa de flutuar entre os dias, não me preocupando tanto com datas e horários além do necessário. Esse era um sentimento novo para mim, porque me treinei para ser produtiva e pontual e era boa nisso. Compromissos agendados, tarefas cumpridas, demandas atendidas e o máximo que conseguisse fazer em dia, era a forma como vivia até pouco tempo atrás.

Foi ótimo me dar a permissão para deixar mensagens sem resposta por mais tempo que o habitual, não olhar o celular com tanta frequência, dar menos satisfação, não medir a produtividade e simplesmente viver. Priorizei fazer coisas novas, fui sendo guiada pela intuição e pelas sensações do meu corpo, o que fazia o coração aquecer era colocado no início da lista de afazeres sem pensar muito. Olhando agora, foi um perfeito “fim” para a palavra do ano anterior, presença. Estive presente, puramente sendo e lidando com as coisas conforme iam acontecendo, um sonho para uma ansiosa como eu. Um sonho possível.


O que jamais imaginei foi que a coragem que escolhi para andar grudadinha em mim em 2020 viria tão avassaladora. Ao decidir, foi a etimologia da palavra que me chamou a atenção e me fez não ter dúvidas:

“A palavra “coragem” tem sua origem no Latim CORATICUM, e possuía o mesmo significado. Este termo latino é composto por COR, que significa “coração” e o sufixo -ATICUM, que é utilizado para indicar uma ação referente ao radical anterior. CORATICUM seria, literalmente, ação do coração, isto porque acreditava-se que era neste órgão que a coragem se alocava.”

Senti que era isso que queria desenvolver e fortalecer esse ano: a ação do coração, para tomar decisões e lidar com as consequências de forma consciente, resgatar e assumir a minha essência, viver autenticamente e me colocar verdadeiramente no mundo. Na época, parecia que eu precisaria de uma boa dose de coragem para fazer tudo isso, abrir o meu coração e dizer: “essa sou eu e é assim que quero viver minha vida”. Necessitaria de mais coragem ainda para manter esse coração aberto e disposto durante a jornada, tendo sempre em mente que é a meu favor e não contra alguém, agindo de maneira firme e amorosa sempre que possível.


Só que a magia da palavra do ano é muito mais profunda e poderosa do que podemos prever e mais uma vez me surpreendeu, porque não tinha como imaginar que uma pandemia bateria em nossas portas menos de um mês depois do decreto da coragem. O mundo virou de ponta cabeça e hoje estamos isolados em nossas casas, adotando um estilo de vida e trabalho que desafia a todos, por ser novo e diferente para a maioria dos seres. Apesar de trabalhar em casa há anos, demorou para que me adaptasse. Dá medo, para não dizer pavor, olhar para o seu tempo e assumir responsabilidade por ele. “Você tem total autonomia para decidir o que vai fazer com o seu tempo”, isso é de arrepiar! Até mesmo porque não somos educados a decidir coisa alguma, as tarefas, deveres e “escolhas” nos são mastigadas desde o dia em que nascemos. Depois nos soltam no mundo e temos que aprender na base da tentativa e erro.

Demorou para não comer tudo o que tinha em casa, para não dormir demais, para não ficar batendo feito uma bolinha pinball de um lado para o outro enquanto o dia passava, para não morrer de ansiedade e querer deitar no chão em posição fetal, para não se descabelar, chorar e gritar, para não descontar a frustração nos outros, para não me culpar, para não trabalhar do acordar até a hora de dormir, para não ter insônia pensando no que tinha para fazer, para assumir a responsabilidade e “relaxar”. Agora imagina se adaptar, estabelecer uma rotina, organizar um espaço de trabalho, se esforçar para manter um equilíbrio entre o trabalho e o lazer, adquirir a flexibilidade e a maturidade para lidar com o ritmo oscilante entre o planejamento e as espontaneidades da vida (não uso mais a palavra imprevisto). Imaginou? Agora tenta pensar em tudo isso com quatro gerações morando juntas na mesma casa. Agora adiciona o confinamento. É o caos e precisa de muita coragem.

foto: Designecologist

Assim também é para todas as pessoas do mundo, precisamos de muitas ações que vem do coração para passar por esse desafio do COVID-19. Precisamos de coragem, compaixão, paciência e resiliência para lidar com a solidão, com o isolamento, com a falta de privacidade, com o estresse, a ansiedade e tudo mais que envolva esse momento. Li em algum lugar que a saída é “para dentro”, concordo. Talvez esse vírus nos force a olhar para o que temos evitado há tanto tempo: nós mesmos, sem julgamentos e além do egoísmo. Se formos capazes de nos cuidar e amar, assim também poderemos fazer com os demais e isso é uma das coisas mais potentes que há.

Já sinto um dos benefícios da desaceleração forçada, o silêncio, na rua de casa não tem mais o ruído dos carros passando a todo momento, daqueles que nos acostumamos, mas nos afetam por estar brigando com a nossa concentração nos bastidores. O distanciamento social já mudou um pouco a disponibilidade em dar bom dia para pessoas desconhecidas na rua, uma prática minha que causa um certo receio nos outros. Tive que sair para passear com os cachorros hoje de manhã, somente uma voltinha perto de casa e depois tomei todos os cuidados recomendados para proteger a mim e a minha família, e senti que as poucas pessoas que encontrei varrendo a calçada ou indo para algum lugar me olhavam com uma certa alegria e sorriam enquanto eu dizia “bom dia”.

Na internet o movimento está mais humano e colaborativo, conteúdos estão sendo disponibilizados gratuitamente, bem como passeios virtuais a museus, operas, contação de histórias e uma infinidade de programas culturais. Estamos usando essa grande rede para coisas maiores do que o individual e nos aproximando através dela. Vizinhos tem se disponibilizado a fazer compras e ajudar aqueles que por algum motivo precisam de apoio, comida e recados amorosos estão sendo espalhados pelos condomínios e cidades, voltamos a enxergar o outro como alguém como nós e não um concorrente. Em pouco tempo, reaprendemos a viver em comunidade, voltamos para casa, no sentido mais lindo de todos. Estamos vivendo no presente, um dia de cada vez, retornando aos nossos valores, questionando o que realmente importa. Quero acreditar que essas mudanças permanecerão em nós depois que a pandemia passar, por isso nesses tempos caóticos em que o melhor a fazer é permanecer em quarentena, para quem pode, e lavar as mãos sempre, te convido a ter coragem, a agir com o seu coração e ver o que acontece.


Foto: Muzammil Soorma

  1. 8 de junho de 2020 - Responder

    maravilhoso, May! ❤

    • 14 de junho de 2020 - Responder

      @Alê

      Obrigada, Ale! Você é um dos maiores colaboradores da minha palavra do ano <3