Mayara Bortolotto

Alimentação, criatividade e política

Fiquei doente na semana passada, por isso passei alguns dias em um ritmo mais lento. O mal estar foi resultado da semana anterior, quando trabalhei intensamente em eventos e é só assim para me parar, na marra. Como adoro o que faço, me vejo trabalhando muito e se não me policiar, emendo um projeto no outro e vou. Provavelmente por isso, fiquei com muita vontade de cozinhar nos últimos dias e aproveitei o domingo de carnaval para me dedicar a essa atividade. Cozinhar é uma coisa que sempre gostei de fazer, mas me afastei há algum tempo.

Gosto de cozinhar para outras pessoas, sentar à mesa, comer e conversar, a relação com a comida é afetiva por aqui, resultado das minhas famílias: italiana e japonesa e de tantos bons momentos passados entre cozinha e mesa de jantar. Escolher o que vou preparar, planejar, comprar e separar os ingredientes, descascar, cortar e transformar em outra coisa me fazem sentir bem. É muito além da nutrição, é uma atividade que me traz bem estar, diversão e felicidade que transbordam para o prato. É um ato de autocuidado e autoamor, essencial se quisermos cuidar e amar os demais, porque ninguém pode dar o que não tem.

Quando cozinho (porque quero, não por obrigação) entro no flow, um estado onde estou totalmente presente e imersa na atividade. A partir disso, me conecto com a minha criatividade, tenho ideias e sinto cheia de energia. Texturas, aromas, cores e sabores me encantam. Uso as mãos, testo combinações, exploro os alimentos, experimento coisas novas, improviso e me levo menos a sério. É um laboratório criativo, cheio de ideias e magia. É o exercício de “Encher o poço”, que Julia Cameron propõe em seu livro “O caminho do artista”, ela fala da importância da atenção focada e de como as atividades regulares e repetitivas como dirigir, lavar louça, cozinhar ou tomar banho, comumente trazem soluções para problemas que precisam de criatividade.

“O cérebro artista é sensorial: visão e som, cheiro e gosto, toque. Esses são os elementos da magia, e a magia é a matéria elementar da arte. Para encher o poço, pense em magia. Pense em deleite. Diversão. (…)

Faça o que o intriga, explore o que lhe interessa; pense em mistério, e não em maestria. (…)

Lembre-se, a arte é uma atividade do cérebro artista. Esse cérebro é alcançado por meio do ritmo, da rima, e não pela razão”

Julia Cameron. O caminho do artista: Desperte seu potencial criativo e rompa seus bloqueios.

Por ser uma atividade cotidiana acredito ser importante que os momentos preparando as refeições sejam leves e divertidos, mas entendo que isso nem sempre é possível, porque geralmente há uma pessoa (majoritariamente do sexo feminino) encarregada dessa função e o preparo dos alimentos se torna uma obrigação que pesa na rotina e nem sempre tem sua devida importância reconhecida. Esse é apenas um dos impactos da alimentação em nossas vidas, mas escolher o que vamos consumir extrapola a escala do nosso prato e afeta desde a cadeia produtiva até a esfera política.

Escolher com mais consciência é um dos exercícios que tenho feito nos últimos quatro anos, quando fiz uma nova transição de dieta por recomendação médica e diminui o consumo de carnes e embutidos, (a primeira vez que mudei o que consumia foi aos 21 anos, quando tive duas úlceras no estômago). Fui pesquisar sobre alimentação vegetariana e encontrei ótimas fontes que me ajudaram a incluir outros alimentos na rotina, como o Tempero Alternativo. Esse sorbet de manga fácil e delicioso é receita de lá e estava entre as coisas que queria testar faz tempo. O André tem receitas ótimas no blog e é super acessível, trocamos alguns e-mails na época em que estava fazendo a transição. Mais do que aprender a parte de preparação dos alimentos, conheci como a escolha diária do que vamos ingerir é o poder que cada cidadão tem para mudar a forma como o meio ambiente é tratado, quais produtos serão oferecidos nos mercados, quais leis serão propostas, quanto e quais agrotóxicos são permitidos  e como o dinheiro circula na economia.

Sorbet de manga e gengibre do Tempero Alternativo

Mudar o que eu comia impactou a minha vida em muitos níveis, mas o maior deles foi na saúde. Sofria com rinite e sinusite, alergias que atacavam constantemente e me deixavam com o nariz totalmente machucado, de tanto assoar. Além disso, causava inflamação na minha pele, dores de cabeça, coceira nos olhos e incontáveis espirros. Todos esses sintomas não permitiam que eu sentisse cheiros ou sabores, atrapalhavam meu sono e me deixavam muito irritada. O impacto se estendia a minha atenção, produtividade e criatividade, afetava meu desempenho da escola, no ballet, na universidade e no trabalho. Mexia com os ânimos nas relações e causava uma série de desconfortos em eventos sociais. Quando diminui a quantidade de leite e derivados que ingeria, o quadro mudou drasticamente e hoje raramente tenho crises alérgicas.

A comida é o combustível para todos os momentos da nossa vida, tem o poder de nos conectar e de impactar todas as esferas da nossa existência, por isso é essencial que sejamos mais conscientes nas escolhas e dediquemos mais atenção ao que ingerimos. Para além do prazer de ingerir determinado alimento, é importante ampliar o olhar e entender como o que colocamos no prato afeta a vida no planeta. Que tal prestar mais atenção nisso e se permitir experimentar coisas novas?

Sites e perfis para aprender mais sobre alimentação e seus desdobramentos:
Cebola na manteiga e @cebolanamanteiga por Carol Dini
Comida saudável para todos e @comidasaudavelpratodos por Juliana Gomes
Outra Cozinha e @outracozinha por Carla Soares

Foto: Brooke Lark . Unsplash