Mayara Bortolotto

De quem é meu corpo?

Desde que me mudei para o centro da cidade, comecei a desenvolver gosto por andar a pé. A escola era próxima do apartamento onde morávamos e a pessoa que cuidava de mim e da minha irmã na época, a amada Nice, nos acompanhava durante a caminhada até o colégio todos os dias. Um pouco mais velha, ia a pé sozinha para a escola e para o ballet. Cotidianamente, passava por ruas onde tinha que ficar alerta e vigilante, porque casos de assédio e violência aconteciam corriqueiramente. Cantadas e olhares que me constrangiam eram comuns, mais de uma vez passaram por mim, correndo ou de bicicleta, tocaram e apalparam meu corpo sem consentimento, me fazendo chorar de raiva e impotência. Me sentia desrespeitada e insultada com o comportamento dos homens, mas não sabia o que fazer a respeito e tinha que ir andando para os meus compromissos de qualquer forma, por isso continuei fazendo os trajetos habituais com mais cuidado para não ser assediada, olhando bem antes de atravessar uma praça ou parando para esperar alguém que me parecia suspeito se afastar. Com o tempo também aprendi a me fazer de desentendida, a “não ouvir” e a não responder.

Mesmo enquanto tinha carro, continuei andando pela cidade a pé, por gostar, por não ter paciência de ficar procurando vaga para estacionar, por não saber andar de bicicleta e por ser meu direito. Gosto de fazer longas caminhadas para pensar, me exercitar, me acalmar e conhecer os lugares de verdade. Fico incomodada quando alguém começa a colocar obstáculos em meu hábito por segurança, porque sinto que isso mexe em um valor importante para mim: a liberdade. Me sinto livre quando dependo apenas das minhas pernas para ir onde quero e na velocidade que desejo, sem dar satisfação para ninguém. O vento no rosto, o jogo de luz e sombra do sol entre as folhas, os detalhes dos edifícios, os cheiros dançando no ar, as cenas da vida cotidiana que só são contemplados da escala do transeunte, tudo isso é rico para mim e não estou disposta a abrir mão.


Nesses anos de caminhadas, desenvolvi algumas técnicas, predileções e manias, entre as coisas que gosto de fazer andando está ouvir podcast. É através desse costume que experimento diversas sincronicidades e o Coemergência¹, um dos favoritos de um ano para cá, me possibilita várias delas. Dia desses ouvi o episódio “O corpo da mulher na história” (recomendo muito), onde entre outras coisas que as mulheres sabem por experiência própria e por relatos de pessoas próximas, passeei sobre o embasamento teórico de parte do desconforto que sofremos simplesmente por sermos mulheres. A convidada, Paloma Czapla, é historiadora pela UFRGS e mestranda em História Cultural pela Unicamp, na linha de pesquisa sobre gênero e teoria feminista.

“A pesquisa da Paloma parte de um processo criminal de uma mulher que foi condenada por matar seu marido em 1940 no interior do Rio Grande do Sul e abre para pensar as narrativas que foram historicamente construídas sobre as mulheres, além das intersecções de sexo, gênero, classe e raça no sistema penal.

A partir dessas discussões, a Paloma levanta temas extremamente relevantes para nosso contexto atual: o que foi falado sobre as mulheres ao longo da História? De onde nossos referenciais do que entendemos como “mulher” vêm? Como isso influencia a vida das mulheres até hoje, especialmente as não brancas? Qual a importância de estudarmos esses discursos? Como isso se conecta com a possibilidade de construirmos realidades diferentes para as mulheres hoje em dia?”

Parte da descrição do episódio #25 O corpo da mulher na história com Paloma Czapla, podcast Coemergência.

Para falar sobre o assunto, a convidada volta a história de Adão e Eva, demonstrando como a maneira com que esta foi adotada pela Igreja legitima uma série de práticas contra as mulheres, entre elas a dominação masculina sobre nosso gênero e a visão da menstruação como um castigo decorrente da desobediência de Eva. A partir daí, Paloma vai discorrendo sobre como essa e outras histórias contribuíram para construir um modelo de subjetividade para as mulheres e como a continuidade da moral cristã ao longo dos anos vai impactar a medicina e a ciência dos séculos XIX e XX. Nesse novo período, a religião não consegue mais explicar todos os fenômenos como no passado, por isso essas novas áreas do conhecimento, pautadas em valores cristãos, assumem que o que era considerado pecado pela Igreja e transformam em doença. Começa-se então a identificar no corpo, não mais em um conjunto de regras e na moral, as justificativas para as nossas hierarquias.

“Antes, a Igreja dizia: ‘mulheres estão abaixo dos homens, são inferiores. Eva foi a pecadora.’ Agora, a ciência vai dizer: ‘as mulheres são inferiores por causa de determinadas características. As mulheres não só são inferiores aos homens, como também são só mães. O destino das mulheres é serem mães.”

Paloma Czapla, episódio #25 O corpo da mulher na história com Paloma Czapla, podcast Coemergência.

Essas, e muitas outras informações ao longo do podcast, ficaram ecoando aqui dentro por dias, mas como estava envolvida em outros projetos que precisavam da minha atenção, o tempo foi passando e o texto não saiu. Hoje, ao receber a notícia da trágica morte de uma mulher de Maringá nesse final de semana, decidi priorizar isso que quer ser escrito há algum tempo, mas não encontrou espaço na minha agenda até agora. Saber desse feminicídio mexeu fundo aqui dentro. Apesar de não conhecer a Maria Gloria, Mago, fui tomada de uma tristeza profunda. Eu, que tenho procurado belezas para encher meus olhos em dias cinzentos da alma, que tenho convidado amigos para ir para a cachoeira comigo – essa mesma onde o corpo foi encontrado – porque quero estar perto da natureza e é próxima da cidade, percebi mais uma vez que ainda não posso ser livre.


Quando nos mudamos para o centro da cidade, eu tinha 9 anos e meu pai havia falecido há pouco tempo, ficando apenas eu, minha irmã mais nova e minha mãe. Nessa época, achava que não ter uma figura masculina durante a minha formação não impactava muito, estava ocupada com o luto e a ausência da pessoa que mais amara até então. Durante bastante tempo, minha vida foi cercada por mulheres: mãe, irmã, babá, empregada doméstica, tia, prima e avó, amigas do colégio e do ballet, eu não tinha muito contato com homens fora da escola e isso era natural para mim. Só fui perceber mais tarde, quando comecei a me relacionar, que não sabia coisas básicas sobre o sexo masculino e masculinidade, não tinha referenciais e por isso tive que aprender na base da tentativa e erro, me sentia confusa, incapaz, inadequada e inapta. Além disso, cresci ouvindo frases como: “É culpa da Eva que comeu a maçã”, “mulher é tudo invejosa”, “homem não presta” e “não confie em ninguém” como parte do meu dia-a-dia, só fui refletir sobre elas e como impactavam minha visão de mundo mais tarde.

Hoje não é mais assim, questiono e repenso muitas questões. Entendo a preocupação de minha mãe quando resolvo me vestir da forma que quero, algumas vezes com roupas curtas e sem sutiã, quando me censura por sair com essas roupas e me expor aos olhares de pessoas que enxergam o meu corpo como objeto, como convite e como afronta, sejam homens ou mulheres. Minha mãe tem medo de que algo aconteça comigo, não pelo meu comportamento ou qualquer coisa relacionada a mim, mas pela conduta do outro, pela crença de que vale mais do que eu. Ao longo do tempo aprendemos a nos reprimir, umas às outras, por proteção, por machismo ou por termos sido reprimidas e vamos reproduzindo o ciclo no automático até que alguém pare para olhar com mais atenção e fazer algo diferente a respeito.

Scream,

So that one day

A hundred years from now

Another sister will not have to

Dry her tears wondering

Where in history

She lost her voice

Jasmin Kaur

Eu fiz isso, olhei bem no fundo das frases repetidas por gerações, questionei motivos e lutei contra o padrão enraizado dentro de casa. Tantas vozes silenciadas, oprimidas, agredidas, subjugadas, violentadas e mortas, simbólica ou literalmente. Já tive noites choro sem motivo aparente, não sabia de onde vinha a angústia e melancolia, hoje sei que vinham de mémorias de antepassados. Ainda há muito o que fazer, me pego caindo nos velhos buracos de vez em quando, levanto e tento fazer melhor da próxima vez. É desconstrução diária, de mim e de quem está perto, sigo reajustando rotas e reconstruindo limites que se perderam com o tempo. Mergulhar nas águas profundas da própria história dá medo, mas quero poder transitar livremente com as roupas que quiser e ir onde tiver vontade sem precisar estar acompanhada ou pedir permissão como nos séculos passados. Quero não sentir medo a todo momento e não viver em estado de alerta e desconfiança. Quero me relacionar com qualidade, sem carregar traumas e crenças do passado. Além do mais, já morri tantas vezes nessa vida, fui censurada, reprimida, assediada, abusada, abandonada e rejeitada por quem dizia me amar. Fui invisível e ignorada por tempo suficiente para acreditar que não merecia ser vista nem ouvida. Passei por grandes desafios, perdas e dores dilacerantes ao longo do caminho, com isso aprendi e me fortaleci. Não ocupei meu lugar por tempo demais, mas recuperei o brilho e a voz. Estou determinada a ser luz nesse mundo, uma chama que a(s)cende outras mulheres, assim como Magó foi.

“Você foi uma das coisas mais maravilhosas que passou por esse planeta, Magó. Em corpo, alma e espírito.

E essa carta é uma despedida do seu corpo terreno, da coisa mais maravilhosa, amorosa e gentil que foi o seu caminhar, seu brilho e sua presença nessa terra de homens maus.

Mas essa carta também é um lembrete para as que ficam. Não temos tempo para ser perdido. Não temos tempo para ficarmos paradas. Não temos tempo para ficarmos se-paradas. Temos apenas o tempo para um novo futuro, com carinho, com proteção e com a consciência de que estamos vivas. E de que a vida em si é a coisa mais maravilhosa da própria vida.

Só há tempo para o amor.

E juntas honraremos a memória de todas as coisas maravilhosas que nos foram tiradas.”

Carta ao fim de coisas maravilhosas, por July e Lubs no perfil da @mamabeads

  1. “A proposta do Coemergência é explorar temas importantes da nossa sociedade e da vida cotidiana, sempre a luz da relação entre os nossos mundos interno e externo. Partimos do princípio de que a maneira como percebemos e nos posicionamos no mundo está diretamente relacionada aos nossos referenciais, visões de mundo, hábitos e experiências previas.”
  2. Foto de Rodolfo Sanches Carvalho
  1. 27 de janeiro de 2020 - Responder

    Reconheço a urgência. Reconheço a importância. Reverencio as que tem força. Ainda não consegui me livrar dos medos. Por repressão, por proteção. Todo dia uma tentativa da vencer o medo.

    • 29 de janeiro de 2020 - Responder

      @Rosangela

      Oi Rosangela, estamos juntas no processo de desconstrução pessoal e social. Obrigada pela coragem de se permitir viver isso, siga no seu ritmo e confie em você. Avançamos a cada dia, acredite 🙂

  2. 28 de janeiro de 2020 - Responder

    Texto incrível, você aborda um tema tão complicado de forma leve e muito bem escrito, com certeza faz uma enorme diferença na vida de quem lê. Obrigado, fico feliz de conhecer uma pessoa tão maravilhosa como você.

    • 29 de janeiro de 2020 - Responder

      @Vagner Serikawa

      Oi Vagner, fico feliz que tenha gostado do texto. Obrigada por ter dedicado seu tempo para ler e pela gentileza do comentário. Gosto muito de ter você por perto e acompanhar seu crescimento, sigo torcendo pela sua felicidade e realização. Beijo para você e para o João

  3. 31 de janeiro de 2020 - Responder

    Que texto lindo Mayara! Como temos ficado ultimamente, esse me deixou arrepiada. Um arrepio de medo, de orgulho, de sororidade e de esperança por um futuro melhor. Que possamos nos unir sempre mais nessa caminhada por igualdade e liberdade. #nemumaamenos

    • 19 de março de 2020 - Responder

      @Tamires

      Obrigada, Tamires! Vamos juntas, nos apoiando e crescendo. Nenhuma a menos!