Mayara Bortolotto

Ritual pessoal: a palavra do ano

Todos os anos escolho uma palavra para guiar as áreas da minha vida. Essa prática começou de forma natural e sem pretensão, desde então sigo fazendo e desfrutando de seus presentes ao longo do caminho. Era um compromisso particular que guardei por anos até que um dia decidi contar para uma pessoa. Esse alguém gostou e adotou a prática, comentou com outras pessoas que passaram a escolher suas palavras também, aumentando o singelo número dos que praticam essa cerimônia especial.

A palavra do ano não precisa ser escolhida na virada, nem ser algo grandioso. O melhor é que seja bem simples, direta e que possa ser aplicada em muitas áreas da vida. A minha palavra surge com o tempo, começa como um borrão que vai ficando cada vez mais nítido ao longo das reflexões que surgem durante o processo. Vou olhando para mim e percebendo o que quero melhorar, ver crescer, desenvolver e incorporar aos meus dias. Às vezes vem mais de uma possibilidade e faço uma pequena lista que vou namorando até que a eleita fique evidente. Já aconteceu dela vir em dezembro do ano anterior, mas também já apareceu apenas em fevereiro do ano seguinte e tudo bem. O propósito é ter um guia para seguir, algo que me ajude a fazer escolhas, perceber minha evolução e focar no que elegi como importante para aquele período.

Tudo parece bem simples, certo? Peço que não se deixe enganar pela aparente simplicidade desse processo, pois a palavra do ano é uma forma poderosa de autodesenvolvimento. Ela vem para te desafiar a ser sincero consigo e comprometido com os desafios que aparecerem no caminho. Ah, os desafios! É incrível como aparecem quando resolvemos olhar para a vida sob a ótica da palavra do ano. Sabe quando pesquisamos algum item para comprar na internet e depois somos bombardeados por anúncios e imagens daquele objeto? Com a palavra do ano é igual: basta colocar a lente da palavra eleita e somos surpreendidos com situações vindas de todos os lugares e áreas para trabalharmos o aspecto escolhido. Uma chuva de possibilidades para treinar até incorporar e se tornar natural.


Lembro da primeira palavra que me escolheu e deu início a esse ritual pessoal: experimentar. Segundo minhas anotações, era 2012 e eu tinha acabado de voltar do Japão onde passei três meses com a minha família. Era um momento de recomeços e possibilidades a escolher. Olhando para trás, faz sentido que a palavra de 2012 tenha sido essa, eu queria experimentar uma nova área de atuação profissional e as relações sob outras perspectivas. Quando tinha que fazer alguma escolha que me dava medo por ser nova e desconhecida, aplicava o princípio adotado de experimentar, me permitia olhar para a situação com os olhos curiosos de primeira vez e com a disponibilidade de uma criança. Já experimentou fazer isso?

Depois de “experimentar”, vieram: permitir-se, paciência, tolerância, serenidade, leveza e verdade. Olhando para cada uma delas e fazendo uma retrospectiva dos acontecimentos marcantes de cada ano, consigo ver a beleza do desenvolvimento e crescimento pessoal experienciado em cada oportunidade. Essa é a mágica do processo, as palavras adotadas refletem nosso momento de vida, é a nossa sabedoria interna apontando a direção a seguir. Todas as palavras que caminharam comigo durante os últimos anos me trouxeram até a palavra de hoje. Elas foram incorporadas em meu repertório e são usadas quando me vejo frente a situações novas e desafiadoras. São virtudes que fazem parte de quem eu sou, graças ao meu desejo de cultivá-las e a minha disponibilidade em exercitá-las. Tudo o que precisamos fazer é dar espaço para que ela emerja e então nos comprometermos com o que ela trará.


A palavra desse ano é presença. Me comprometi a viver o momento presente, seja ele qual for. Procuro voltar para o agora toda vez que percebo que a minha mente me leva para outro lugar que não seja onde verdadeiramente estou, é um treino constante. Percebo as emoções se manifestando no meu corpo e uso os cinco sentidos para reestabelecer a conexão com o presente. A prática de meditação, que faço há alguns anos, me ajuda nesse processo, mas não só ela. Li, e sigo lendo, diversos livros sobre o tema, cruzo com as informações obtidas nas minhas vivências e forjo um caminho que faz sentido para mim. Entre essas leituras, topei com um livro delicioso, escrito por uma monja francesa, sobre o silêncio. Ela traz reflexões pertinentes e humor na medida certa, uma forma de escrever que admiro. O assunto do livro me interessa bastante e soma com a forma como vejo a presença, por isso foi uma leitura apaixonante para mim.

“Ouvir o silêncio, o espaço entre as palavras, a calma na tempestade e a passagem do tempo. Reaprender a provar: o sabor de um instante, o aroma de um prato, a espuma dos dias e o calor do fogo. Reaprender a sentir: o contato das mãos, um coração que bate, o espaço que se abre e o tempo que para… Um programa e tanto!”

Tannier, Kankyo. A magia do silêncio: Um olhar moderno e descontraído sobre práticas e tradições milenares que conduzem à calma e à serenidade.


O desafio de não ser muito mental e estar mais conectada com o meu corpo é constante para mim. A tendência a entender e explicar tudo é global e massacrante, herança da racionalidade positivista onde tudo tem que ser comprovado cientificamente ou não tem valor. Seguindo radicalmente por esse caminho, vivi os malefícios de viver demasiadamente no passado, quando tive depressão, e no excesso de futuro, quando experimentei as crises de ansiedade. Não é fácil viver no presente hoje em dia, as distrações são sedutoras e abundantes, roubam nossa atenção em segundos. Os ruídos, os apelos visuais e as tarefas a serem realizadas são extenuantes. Coisas simples passam despercebidas por estarmos acostumados a fazer mais de uma atividade por vez, anestesiando nossas experiências para satisfazer a necessidade de ser produtivo o tempo todo. Na tentativa de silenciar o barulho interno para estar mais presente, tenho exercitado pensar e falar menos e dar preferência a ouvir mais, oferecendo meu silêncio ao mundo.

“Portanto, vamos agradecer do fundo do coração àqueles que não acrescentam suas vozes à cacofonia ambiente, aos que não dão sua opinião o tempo inteiro, aos que deixam os outros falarem, aos que preferem passear com o cachorro a sair para beber com os amigos, aos que não ligam o rádio ao entrar no carro… esses são, sem dúvida, os santos do século 21!”

Tannier, Kankyo. A magia do silêncio: Um olhar moderno e descontraído sobre práticas e tradições milenares que conduzem à calma e à serenidade.

O desafio que a palavra desse ano traz para minha vida é uma mudança que percebo como essencial para viver com plenitude, amor e leveza, por isso aceito o convite da presença todos os dias, em inúmeros momentos cotidianos, praticando e insistindo, como uma criança aprendendo a andar. É também um presente que dou a mim e aos outros, estando verdadeiramente disponível em conversas, comemorações e momentos corriqueiros. Sigo crescendo no meu ritmo, sem certo nem errado, só com a minha disposição em ser melhor, trazendo a luz da presença para iluminar todas as possibilidades que já estão disponíveis para mim, mas que ficam esperando que eu esteja presente para desfrutá-las.

Postado em 22 . 12 . 2019 no Medium