Mayara Bortolotto

Multipotencialidade como vocação

“Um multipotencial é uma pessoa que tem muitos interesses diferentes e atividades criativas na vida. Multipotenciais não têm “um verdadeiro chamado” como os especialistas. Ser um multipotencial é o nosso destino. Temos muitos caminhos e seguimos todos eles, sequencialmente ou simultaneamente (ou ambos).”

Emilie Wapnick

Faz tempo que tenho interesses múltiplos e me vejo refazendo o ciclo: mergulho em um tema, fico fascinada por ele, estudo, pesquiso, aprendo, perco o interesse e parto para outro assunto. Os tópicos são diversos, vão de finanças a espiritualidade rapidamente, não existe uma lógica apenas uma vontade de saber mais sobre aquilo. As leituras e experiências acompanham esse movimento, os questionamentos sobre como faço tanta coisa são recorrentes e amigos vivem descobrindo hobbies que não imaginavam que eu tinha. A frustração em não conseguir me aprofundar em algo e não definir um foco anda de mãos dadas com a rotatividade de interesses.

Durante a transição de carreira (mais detalhes aqui), abri ainda mais o leque de possibilidades em busca do que eu gostava e experimentei tudo que apareceu pela frente. Descobri que queria trabalhar com educação e desenvolvimento pessoal e, de uns tempos para cá, tenho enfrentado a árdua batalha de afunilar os interesses e escolher o rótulo que vai comunicar para o mundo o que eu faço. Não se trata de colocar um simples nome e definir a minha profissão, mas de transparecer a minha maneira de realizar o trabalho. Esse desafio me causou ansiedade em proporções alarmantes e me manteve insone durante preciosas noites, “como vou explicar para as pessoas o que faço e como faço?” era a pergunta que rodava em loop aqui dentro. “Como os clientes vão chegar até mim? O que vou escrever no meu cartão de visitas? Como vou preencher o campo ‘ocupação’ nos formulários? Como vou ganhar dinheiro se ninguém souber o que eu faço?” eram algumas ramificações da pergunta principal.

Até que, em uma conversa recente com uma pessoa que admiro, ouvi:

“Sua visão é multifocal, essa é a sua força. Tudo que você precisa é unir as coisas, cruzar seus conhecimentos e desenvolver a sua linguagem. Quanto menos especialista você é, mais especialista em vida você está”.

Na hora me lembrei de Emilie e das palavras que tinham feito tanto sentido para mim anos antes. Desde que ouvi a definição de multipotencial, parece que alguma coisa aqui dentro sossegou, era a primeira vez que alguém me dizia que tudo bem ser como sou. Era 2015 e eu estava fazendo uma das coisas que mais gosto: assistir palestras do TED sobre assuntos aleatórios, quando me deparei com Emilie Wapnick e seus 12 minutos de “Por que alguns não tem uma vocação específica”.

Um flashback desse momento aconteceu no bate-papo especial durante o dia do meu aniversário. Entender que a minha “falta de foco” está mais para qualidade do que para defeito me fez sentir leve e em casa. Andar por caminhos diversos de forma fluida é o que faz meu coração vibrar e eu estava nadando contra a minha correnteza interna tentando ir mais fundo, quando a minha vocação é ir mais longe. Enfim, decido pela minha autenticidade e não estou sozinha! Tem muita gente plural por aí, pessoas que não se veem como especialistas, mas como eternos curiosos, apaixonados por aprender.

Para os multipotenciais as perguntas: “O que você quer ser quando crescer” e “Qual é a sua profissão?”, são barreiras limitantes, pois seu raciocínio é orbital e o que os fazem feliz é a possibilidade de transitar por essas órbitas de interesse sem que precise só andar em linha reta.

Rafa Cappai

Sim, dá trabalho explicar o que eu faço, onde quero chegar, o que uma coisa tem a ver com a outra ou o que vou fazer com mais esse curso ou esse projeto e às vezes não tenho essas respostas, mas é a multiplicidade que me mantém viva. É ali que a minha criança se sente em casa, onde não vejo o tempo passar e fico imersa, em êxtase. Saio exausta de oficinas que facilito ou apoio, trabalho em qualquer dia da semana, não tenho horário nem lugar, mas também posso passar a segunda-feira de pernas para o ar. Me entrego para os projetos, metodologias e ferramentas com dedicação e paixão, porque escolhi estar ali. Nos últimos dois meses participei de círculo de mulheres, imersão de empreendedoras, congresso de altas habilidades e superdotação, provas e trabalhos da graduação em psicopedagogia, feira de escola com as pipocas artesanais de que faço, estágio em feira literária e em curso de meditação infantil, facilitei oficina para advogados em Curitiba, fui modelo para uma amiga maquiadora, participei de aula de tarot, comecei um site, montei oficina para ensinar o método bullet jornal e participei de uma vivência do clube criativo de uma amiga. Ufa!

Tem dias em que me sinto cansada, pergunto por que assumi tantas coisas, perco a paciência e cobro de mim e dos outros. Ser autônoma e ter múltiplos projetos é incrível e desafiador, é uma verdadeira montanha russa emocional cheia de altos e baixos. Por isso, tento deixar claro o que está se passando comigo e ser honesta com os demais, acredito que isso contribui para cultivar relações saudáveis e permite que os outros sejam eles mesmos. Esse processo é demandante e exige comprometimento, mas estou disposta a seguir enfrentando os desafios em direção ao lugar que só eu posso ocupar: ser eu mesma, sem rótulo definido e com múltiplas facetas.

“Eu quero que multipotenciais parem de se torturar por não conseguirem encontrar sua “única e verdadeira vocação” ou se encaixar em uma caixa. Quero que eles vejam que suas experiências diversas e curiosidade insaciável não são um grande fracasso, há uma boa razão para que sejam assim.”

Emilie Wapnick

Postado no dia 14 . 12 . 2019 no Medium