Mayara Bortolotto

Cruzar a Ponte: Como Foi Minha Travessia de Transição de Carreira

Qual é a pergunta mais difícil que alguém pode te fazer? Para mim é “o que você faz?”. Sinto desconforto físico e um certo pânico ao responder essa pergunta. Quando tenho intimidade, me permito tentar explicar. Quando tenho preguiça ou falta tempo, digo que sou arquiteta, apesar de não trabalhar na área há anos. O fato é que eu não decidi fazer uma transição de carreira, ela aconteceu como um reflexo da minha vida pessoal e não foi um processo simples.

Já me sentia deslocada na faculdade de arquitetura e urbanismo e quando fui para o mercado de trabalho, o sentimento não mudou. Era um misto de confusão, frustração e vontade de fazer aqueles cinco anos de dedicação à graduação darem certo. E deu. Por sete anos trabalhei com criação de projetos, comunicação visual e obras, mas a inquietação permanecia. Com o tempo, as tensões e ansiedade que eu experimentava viraram uma questão física.

Tive que lidar com diversas somatizações, até que um problema de saúde mais sério me levou a uma crise pessoal. Fiquei muito abalada, tive que repensar meus valores e minha vida. O trabalho sempre foi importante para mim, então não demorou muito para que eu refletisse sobre o que fazia, se isso me realizava e qual era minha contribuição para os outros. Nesse processo foram muitas lágrimas, listas de talentos e possibilidades, cursos realizados, conflitos internos e experiências, um turbilhão de pensamentos e um sentimento de não-pertencer que duraram três anos.

Durante esse período, pessoas e oportunidades foram surgindo à medida que eu resolvia as questões dentro de mim. Fui avançando com passos vacilantes, mas determinada a descobrir o que fazia sentido para mim. A vida pessoal foi tomando rumo e a minha profissão foi tomando forma. Para redescobrir o que eu gostava e era boa, comecei me reconectando com uma coisa que sempre me fez muito feliz: a dança. Voltei para o ballet, reencontrei amigas e tive minha primeira experiência ensinando.

Outra inciativa decisiva foi marcar encontros com pessoas e profissionais que admirava e que queria ter por perto, isso me trouxe novas perspectivas, frescor e vitalidade. Me permiti experimentar coisas novas, sem a obrigação de saber o que fazer com aquilo ou como transformar em algo rentável — o que nem sempre funcionava, porque a independência financeira é algo importante para mim e eu me cobrava muito. Foi assim que o LEGO® Serious Play® entrou na minha vida para ficar. Eu já conhecia a ferramenta, mas nunca pensei que trabalharia com ela e nem imaginava a potência da metodologia. Sendo simplista, o método é uma forma de facilitar reuniões, gerar engajamento e solucionar problemas através de rodadas de perguntas e construção de modelos 3d com peças de LEGO® em resposta. No processo, usa-se metáforas, materializa-se pensamentos, prevê-se cenários e gera-se participação de todos. Foi nesse caminho que conheci pessoas incríveis, talentosas e generosas que acreditaram no meu potencial e no meu trabalho, me dando liberdade para arriscar, trocar e crescer.

Oficina sobre produtividade com metodologia LEGO® Serious Play® facilitada por mim em 2017

Comecei a amadurecer a ideia de trabalhar com educação. Já me interessava por esse assunto, me inscrevia em vários cursos pelo prazer de aprender, gostava de ler sobre comportamento humano e emoções, conhecer novas metodologias, dentre elas a da Escola da Ponte, em Portugal, em um curso online. Assistir vídeos e documentários (meus favoritos) sobre educação me emocionavam. Sentia que era isso. Mesmo em meio a uma crise conjugal, depois de um longo debate interno e externo com amigos e pessoas próximas, me matriculei em Psicopedagogia, uma graduação com quatro anos de duração.

Com o fim do meu casamento, outro grande valor teve que ser reavaliado. Mais uma vez em busca de mim mesma, fui procurar uma experiência que me ajudasse a fechar um ciclo e começar outro. Ao perguntar sobre alguma vivência, uma amiga me mandou um documento com a descrição do conteúdo de um curso de Gineterapia, algo que eu nunca tinha ouvido falar e que entendi muito pouco ao ler o descritivo. Ainda assim, algumas palavras me chamaram a atenção e eu fui. Descobri vivenciando que a Gineterapia é:

Um sistema de cuidado integral, um conjunto de práticas e saberes, organizado por Mônica Giraldez e formatado como Curso de Formação e Jornada Terapêutica com abordagem Transdisciplinar Holística. Mais do que isso, é um caminho de encontros com a sabedoria das mulheres, que nos leva desde as antigas culturas Matricêntricas dos tempos paleolíticos até as mais novas descobertas integrando ciências, artes, filosofia e tradições. Busca o equilíbrio na vida das mulheres e do planeta, através do resgate da essência cíclica, que envolve o reconhecimento e a vivência das diferentes fases da vida de maneira plena, o aprendizado e prática de técnicas terapêuticas que são arquetipicamente femininas.

Ali fiz um mergulho muito profundo em mim mesma, lidei com questões pessoais e ancestrais, assumi responsabilidades e perdoei. Mais do que isso, tive a minha percepção sobre a vida modificada para sempre. Descobri referências de mulheres possíveis e relacionamentos saudáveis, mas o mais transformador foi perceber que tenho escolhas, simples não? Nem tanto, mas vou deixar esse assunto para discutir em outra oportunidade.

A possibilidade de escolher com consciência, sem pânico e sem medo de errar, somada as referências de outras vidas possíveis, me ajudaram a me reconectar comigo, me olhar, me perdoar e me amar como nunca. A ponte foi cruzada, cheguei a outra parte do caminho. O que senti, entendi e aprendi na travessia é o que me faz escolher esse trabalho como minha contribuição para os outros: ajudar a encontrar seu caminho de volta para si e trazer sua colaboração autêntica para o mundo, de forma pessoal e individual, porque você tem o direito de deixar sua marca.

Postado no dia 04 . 09 . 2019 no Medium